Escritos & Fragmentospor: Luis Ricardo Teiga Ramalho

Filosofia · Percepção

Uma forma de olhar - Modelo

Elementos do olhar · Parte 3 de 4

Chamamos de modelo tanto o que representa algo quanto o que serve de padrão para fazê-lo. Um texto sobre o que todo modelo deixa de fora, para quem ele serve, quando envelhece e o que acontece quando a representação passa a organizar a realidade.

Strange Model
Strange Model

Não é incomum ouvir que fulano é bem padrão. Ciclano, por outro lado, é um modelo de sucesso. Alguém pode ser um modelo de profissional, de pai, de aluno, de comportamento. Quando vamos comprar um carro, perguntamos qual é o modelo. Fazemos algo parecido com celular, televisão, videogame e uma quantidade enorme de outros produtos. Um arquiteto pode trabalhar com um modelo reduzido de um edifício, uma empresa adota um modelo de gestão, um cientista constrói um modelo para estudar determinado fenômeno. Nos últimos anos, passamos a conversar com modelos de inteligência artificial quase diariamente. É uma palavra ocupada.


Em alguns desses usos, modelo parece significar exemplo. Em outros, uma versão. Pode ser uma representação, um padrão, um molde, uma referência, um tipo, uma simplificação ou alguma coisa criada para ser reproduzida. Às vezes olhamos para o modelo tentando compreender algo que já existe. Em outras situações, usamos o modelo para fazer alguma coisa existir de determinada maneira. Essa diferença vai nos dar trabalho.


No texto anterior desta série, quando escrevi sobre estrutura, contei que durante a organização inicial da minha decupagem eu havia colocado modelo como uma sexta dimensão da estrutura. Depois retirei. Percebi que tinha misturado duas coisas: as características daquilo que eu estava observando com uma ferramenta que eu mesmo utilizava para conseguir observá-lo.


Um organograma pode representar parte da estrutura de uma empresa, mas o organograma não está lá dentro junto com departamentos, pessoas, relações, regras, dependências e fluxos. Alguém escolheu desenhá-lo. Uma árvore genealógica pode representar relações de parentesco sem carregar a viagem em família de 1998, a briga entre dois irmãos ou o fato de que uma pessoa praticamente criou um primo como filho. Um mapa curricular mostra disciplinas, cargas horárias, pré-requisitos e uma sequência de formação, porém deixa de fora boa parte da experiência concreta de cursar aquilo que está desenhado.


Naquele texto eu escrevi que o risco começava quando esquecíamos que fomos nós que fizemos o recorte. Ficou uma coisa importante sem desenvolver ali.


Uma pequena medida


No texto sobre estrutura, comecei pela etimologia. Vou repetir o movimento aqui porque a origem de “modelo” guarda uma imagem especialmente boa.


A palavra chegou ao português pelo italiano modello. Viajando um pouco mais no passado, encontramos o latim modulus, ligado a modus, palavra associada a medida, maneira, modo. Modulus carrega justamente a ideia de uma pequena medida, uma medida reduzida ou um padrão de proporção.


Gosto bastante dessa imagem. Uma pequena medida de alguma coisa. Ela funciona muito bem quando pensamos numa maquete. Um edifício enorme aparece sobre uma mesa, reduzido a um tamanho no qual consigo enxergar de uma só vez relações que seriam difíceis de perceber andando por seus corredores. A altura diminuiu, as paredes ficaram pequenas, os materiais podem nem ser os mesmos, ninguém vai morar naquela construção minúscula e provavelmente nem existe encanamento dentro dela. Mesmo assim, determinadas proporções e relações foram preservadas porque são justamente elas que interessam naquele modelo.


A redução não aparece como um defeito. Ela é parte do motivo pelo qual a maquete funciona.


Quando vou para o dicionário analógico, a palavra começa a circular por uma vizinhança formada por termos como padrão, paradigma, exemplo, molde, protótipo, forma, representação e imitação. Essa vizinhança ajuda a perceber uma característica que o uso cotidiano costuma esconder: chamamos de modelo tanto aquilo que representa alguma coisa quanto aquilo que serve de referência para que outra coisa seja feita. Posso construir um modelo de alguma coisa. Posso também construir alguma coisa a partir de um modelo.


Quando digo que uma pessoa é um “modelo de profissional”, não estou apenas descrevendo aquela pessoa. Estou colocando certos atributos dela numa posição de referência. Pontualidade, competência técnica, produtividade, postura, disponibilidade, comunicação, obediência, autonomia, criatividade, aparência ou qualquer combinação que aquele contexto tenha escolhido valorizar. Alguém poderia olhar para a mesma pessoa a partir de outros critérios e produzir outro modelo de profissional.


Aliás, “modelo de sucesso” é uma expressão ótima para pensar nisso. Quando alguém é apresentado dessa maneira, vale perguntar o que exatamente entrou na definição de sucesso. Dinheiro? Reconhecimento? Cargo? Liberdade? Produção intelectual? Família? Patrimônio? Visibilidade? Alguma combinação dessas coisas? Quanto precisou desaparecer para aquela pessoa caber confortavelmente dentro do modelo? Uma palavra que parecia simples já colocou seleção, medida e julgamento na conversa, algo bem comum por sinal...


Representar alguma coisa exige perder alguma coisa, felizmente.


Herbert Stachowiak publicou em 1973 sua Allgemeine Modelltheorie, ou Teoria Geral dos Modelos. Não pretendo reconstruir a obra inteira aqui, até porque isso nos levaria muito além da proposta desta série. Três características que ele atribui aos modelos me interessam bastante: representação, redução e pragmatismo.


A primeira é relativamente intuitiva. Um modelo é modelo de alguma coisa. Pode representar um objeto material, uma organização, um fenômeno, uma relação, um processo ou até outro modelo. Alguma correspondência precisa existir para que reconheçamos aquilo como representação.


A segunda característica começa a complicar a história: modelos reduzem. Eles não carregam todos os atributos daquilo que representam. Selecionam alguns.


Pensa num mapa de metrô. Se sua intenção é descobrir onde trocar de linha para chegar a determinada estação, pouco importa saber a altura exata dos prédios sobre cada túnel, a espécie das árvores plantadas nas calçadas ou a cor das portas das casas pelas quais o trem passa. Colocar essas informações não deixaria necessariamente o mapa melhor. Poderia deixá-lo pior justamente porque dificultaria enxergar aquilo que você precisava encontrar.


Se eu estiver estudando arborização urbana, o mesmo conjunto de informações que parecia inútil cinco minutos atrás pode se tornar central. O mapa precisará ser outro.


Volto então à árvore genealógica. Ela não falhou porque esqueceu a viagem em família de 2019. Provavelmente faria um trabalho péssimo como árvore genealógica se tentasse registrar todas as conversas, afetos, conflitos, dívidas, alianças, ressentimentos, aniversários, mudanças de cidade e receitas de família de todas as pessoas representadas. Aquilo que ela deixa de fora participa daquilo que permite enxergar.


O mesmo vale para um organograma. Ele consegue mostrar posições formais, áreas, níveis hierárquicos e certas relações de subordinação com uma clareza que uma descrição de cinquenta páginas dificilmente teria. Só que provavelmente não mostrará quem realmente é consultado antes de uma decisão importante, qual gerente perdeu autoridade há meses sem perder o cargo, quem almoça com quem, onde determinada informação costuma parar ou aquela pessoa sem posição de liderança que consegue mobilizar metade da empresa com uma mensagem no WhatsApp. O organograma continua útil. Só ficou mais fácil perceber para quê.


Essa ideia conversa bastante com uma frase associada ao estatístico George Box: “todos os modelos estão errados, mas alguns são úteis”. A frase parece meio agressiva quando aparece sozinha, especialmente porque costumamos entender “errado” como sinônimo de algo que precisa ser descartado. Box estava trabalhando outra questão. Modelos são aproximações. Pedir que uma representação coincida perfeitamente com toda a complexidade do fenômeno representado elimina justamente uma parte do que permite trabalhar com ela.


Poucos dias atrás, em O Mapa antes do Território, voltei a uma pequena fábula de Borges usada por Jean Baudrillard: cartógrafos levam sua disciplina a um nível de precisão tão absurdo que produzem um mapa do tamanho do próprio Império. Ali a história me interessava por causa de Baudrillard e da inversão entre representação e realidade. Aqui ela serve para outra coisa.


Um mapa na escala de um para um é uma piada excelente sobre a obsessão pela precisão. Se para representar o território preciso construir outro território do mesmo tamanho, carregando tudo aquilo que já estava no primeiro, perdi boa parte da razão pela qual queria um mapa.


Alfred Korzybski condensou essa distinção numa formulação conhecida: o mapa não é o território. Precisamos que não seja.


Para quem, quando e para quê?


A terceira característica de Stachowiak ajuda a sair da ideia de que modelos podem ser avaliados apenas perguntando se são fiéis. Um modelo é construído e utilizado por alguém, durante algum tempo e com alguma finalidade.


Essa dimensão pragmática me interessa pra caramba porque muda a pergunta. Em vez de olhar para um modelo e perguntar simplesmente “isso está certo?”, começo a perguntar “isso serve para quê?”.


O mapa do metrô pode ser ótimo para quem precisa trocar de linha e quase inútil para alguém estudando o relevo da cidade. Uma previsão de demanda pode ajudar uma empresa a decidir quanto produzir sem ter qualquer utilidade para explicar por que determinado consumidor escolheu um produto. Um mapa curricular pode ajudar a visualizar uma formação inteira e ainda dizer muito pouco sobre o que um estudante realmente aprendeu. Uma avaliação de desempenho pode organizar determinadas informações sobre uma pessoa e ser ridiculamente insuficiente para descrever sua atuação inteira.


Isso vale até para aqueles modelos de produtos do começo do texto. Quando alguém pergunta qual é o modelo do seu carro, está tentando localizar aquele objeto dentro de uma classificação compartilhada. Marca, linha, versão, ano e certas características permitem distinguir um veículo de outros muito parecidos. O modelo funciona quase como uma posição dentro de uma família de objetos.


Com videogames acontece algo semelhante. Um console pode receber versões diferentes ao longo de sua existência, com alterações de tamanho, componentes, capacidade, desenho ou recursos. Continuamos reconhecendo uma família comum, ao mesmo tempo que precisamos de alguma classificação para separar suas variações.


Modelo, nesse uso, não parece uma representação abstrata da realidade. Mesmo assim, conserva uma parte daquela velha ideia de medida e padrão: determinado objeto pertence a uma configuração reconhecível que permite compará-lo, reproduzi-lo, distingui-lo e dizer alguma coisa sobre ele antes mesmo de olhar para cada unidade individualmente.


A pergunta sobre finalidade também impede uma cobrança meio injusta que fazemos com frequência. Às vezes acusamos um modelo de não responder uma pergunta para a qual ele nunca foi construído. Também fazemos o contrário: confiamos nele para responder muito mais do que consegue. Prefiro desconfiar da segunda situação.


O modelo que tirei da estrutura


Quero voltar por um instante ao erro que contei no post anterior. Quando comecei a decompor estrutura, pensei em seis dimensões. Uma delas era modelo. Conforme fui escrevendo, percebi que partes, relações, posições, hierarquias, fronteiras e sustentação pertenciam àquilo que eu estava tentando observar. Modelo ocupava outro lugar. Era uma construção minha sobre aquilo.


Isso fica mais claro se fizermos um pequeno exercício. Coloca dez pessoas numa sala e pede que representem a estrutura da mesma empresa. Uma pode desenhar o organograma formal. Outra pode mapear quem procura quem quando precisa resolver problemas. Uma terceira desenha fluxos de informação. Alguém resolve observar amizades e conflitos. Outra pessoa acompanha dinheiro. Outra olha somente para decisões. Dependendo da pergunta, cada uma produzirá uma organização diferente do mesmo lugar.


A empresa não precisou mudar entre um desenho e outro. Mudou o recorte.


Esses modelos podem se contradizer em alguns lugares sem que um deles precise ser imediatamente descartado. O organograma diz que determinada pessoa responde ao gerente A. O mapa de influência mostra que ela consulta B antes de qualquer decisão importante. O desenho do processo revela que boa parte do trabalho depende de C, cuja posição formal parece secundária. Os três podem estar mostrando relações reais que aparecem quando mudamos a dimensão observada.


Foi por isso que retirei o modelo da estrutura. Só que essa separação precisa de uma ressalva importante, porque seria confortável demais imaginar que o modelo fica sempre quietinho do lado de quem observa. Ele pode voltar.


Quando a representação começa a organizar o representado


Voltamos à ambiguidade do começo. Modelo também significa padrão a seguir. Essa passagem me parece uma das partes mais úteis do conceito porque aquilo que criamos inicialmente para representar uma situação pode começar a participar da própria situação.


Uma empresa desenha um organograma para representar sua organização. Depois decide reorganizar pessoas para que a prática corresponda ao desenho. Uma escola define um perfil de “bom aluno” a partir de certos comportamentos e passa a recompensar quem se aproxima dele. Um sistema de avaliação escolhe alguns indicadores para medir desempenho. Depois de algum tempo, as pessoas aprendem a trabalhar de maneira a melhorar justamente aquilo que é medido.


O indicador já apareceu no primeiro texto desta série e ganhará seu próprio espaço mais adiante. Por enquanto basta perceber uma coisa: quando escolhemos uma medida para representar desempenho, a medida pode voltar ao ambiente como incentivo. A representação entrou na estrutura.


Pensa numa meta comercial. Ela começa como uma forma de representar um resultado desejado. Depois participa da definição de bônus, pressão, prioridades, distribuição de atenção, contratação e demissão. Pessoas adaptam comportamentos em resposta à métrica. Algumas atividades ganham importância. Outras começam a parecer perda de tempo porque não ajudam no número acompanhado.


Em determinado momento, olhar apenas para a realidade que existia antes da meta já não basta. A própria existência do modelo passou a produzir efeitos nela.


Isso aparece em escalas bem menores também. Chamamos uma criança repetidamente de “aluno modelo”. Em geral queremos elogiar. Só que o elogio carrega uma definição implícita daquilo que conta como bom aluno. Pode ser aquele que tira notas altas, fica em silêncio, entrega tudo no prazo, não questiona demais, participa bastante, lê muito ou cumpre qualquer outra combinação valorizada naquele ambiente. As outras crianças observam, assim como os professores e a própria criança. O modelo começa a ensinar.


Não precisamos imaginar alguma intenção maliciosa por trás disso. Modelos orientam justamente porque ajudam a reduzir incerteza. Se eu consigo reconhecer um exemplo bem-sucedido, posso tentar reproduzir algumas de suas características. Administração, engenharia, educação, tecnologia e uma quantidade enorme de atividades humanas dependem disso o tempo inteiro. Convém apenas lembrar que o padrão também nasceu de um recorte.


Uma decupagem de modelo


Depois de percorrer essas referências e de tentar organizar a maneira como uso essa palavra, comecei a separar algumas dimensões que me ajudam a observar um modelo. A divisão é minha. Serve para o que estou tentando fazer nesta série e não pretende funcionar como uma teoria geral concorrente às que citei antes.


1. Referente


Primeiro tento descobrir de que aquilo pretende ser modelo. Parece óbvio, mas nem sempre é.


Um desenho pode representar uma organização inteira, um departamento, um processo ou apenas a relação entre duas funções. Uma planilha pode modelar custos, produtividade, risco, crescimento ou uma combinação deles. Uma pessoa apresentada como exemplo pode estar sendo tomada como modelo profissional, moral, estético, financeiro ou comportamental.


Sem identificar o referente, fica fácil cobrar coisas demais da representação. Também vale perguntar se o referente ainda existe da mesma forma. Algumas organizações continuam usando mapas construídos para empresas que já não funcionam como funcionavam quando aqueles desenhos foram feitos. O papel envelhece mais devagar que a realidade.


2. Recorte


Depois procuro aquilo que entrou e principalmente aquilo que ficou fora. Todo modelo seleciona. A seleção pode ser explícita, como acontece quando alguém diz quais variáveis entraram numa análise, ou ficar escondida dentro da própria forma de representar.


Um formulário já fez escolhas antes de você começar a preenchê-lo. As opções disponíveis dizem quais respostas aquele modelo reconhece. Um cadastro que permite selecionar apenas determinadas categorias de ocupação, estado civil, escolaridade ou tipo de vínculo já estabeleceu um conjunto de possibilidades dentro do qual você precisará caber.


Quem já tentou preencher um formulário no qual nenhuma alternativa descrevia direito sua situação conhece bem a sensação. O formulário não precisa estar tecnicamente quebrado. Pode simplesmente ter sido construído a partir de um recorte no qual você não entrou.


Isso me faz perguntar: quem escolheu as categorias? Que diferenças foram consideradas relevantes? O que foi agrupado? O que desapareceu?


3. Escala


A escala muda o que conseguimos perceber. Uma estrutura organizacional vista a partir da empresa inteira pode mostrar diretorias, unidades e grandes áreas. Aproximo um pouco e aparecem equipes. Aproximo de novo e encontro pessoas, tarefas, ferramentas, conversas, interrupções e exceções.


Todos esses níveis podem ser legítimos. Confusão aparece quando usamos uma explicação produzida numa escala para responder automaticamente a uma pergunta localizada em outra.


Uma taxa média pode dizer alguma coisa importante sobre uma população e muito pouco sobre uma pessoa específica. Um comportamento individual pode ser real sem servir como evidência suficiente para descrever um grupo inteiro. Uma análise econômica pode funcionar bem em determinado nível e perder poder explicativo quando descemos para decisões particulares.


Às vezes a divergência não está naquilo que duas pessoas observam. Elas simplesmente estão usando escalas diferentes e chamando tudo pelo mesmo nome.


4. Finalidade


Para que o modelo foi construído? Essa pergunta muda bastante coisa.


Posso representar uma empresa para entender poder, reduzir custos, melhorar comunicação, distribuir pessoas, encontrar riscos ou ensinar alguém recém-contratado onde fica cada área. O mesmo objeto aceita modelos muito diferentes porque as perguntas são diferentes.


A finalidade também ajuda a decidir quanto reduzir. Se estou desenhando o caminho da minha casa até um restaurante para um amigo, provavelmente não preciso registrar cada árvore do bairro. Se ele usa cadeira de rodas, uma escadaria que eu poderia ignorar passa a ser informação essencial. O que parecia detalhe ganhou importância quando o usuário e a finalidade mudaram.


Stachowiak inclui justamente esse caráter pragmático na definição. Modelo para quem? Quando? Para fazer o quê? São perguntas simples e muito difíceis de abandonar depois que começamos a usá-las.


5. Tempo


Modelos envelhecem. Alguns envelhecem rápido pra caramba. Um modelo de negócio construído em determinado ambiente regulatório pode perder utilidade depois de uma mudança na legislação. Um planejamento depende de premissas que podem deixar de existir. Um mapa organizacional produzido antes de uma fusão descreve uma empresa que acabou. Uma explicação sobre o comportamento de uma pessoa pode continuar sendo repetida anos depois de ela ter mudado.


Isso me incomoda especialmente em modelos construídos sobre pessoas. Temos uma capacidade considerável de congelar alguém numa versão que funcionou bem para nós em algum momento. A pessoa confiável. O desorganizado. A difícil. O brilhante. O irresponsável. O tímido. O que sempre resolve. O que nunca termina nada.


Pode ter existido alguma observação legítima ali. Só que a observação ganhou permanência.


Quando um modelo expira? Que mudança seria suficiente para revisá-lo? Que evidência faria você admitir que a representação já não descreve bem aquilo que está diante de você? Essa última pergunta costuma doer um pouco mais.


6. Efeito de retorno


Por último, tento observar se o modelo começou a alterar aquilo que deveria apenas ajudar a compreender. Uma classificação pode mudar comportamentos. Um ranking modifica prioridades. Uma avaliação interfere na maneira como alguém trabalha. Uma previsão influencia decisões que participam do resultado previsto. Uma imagem de sucesso começa a orientar escolhas de quem deseja ter sucesso.


Esse retorno dificulta muito separar observador, representação e objeto como três coisas permanentemente independentes. Foi uma questão parecida que apareceu recentemente quando escrevi sobre Baudrillard. Em O Mapa antes do Território, eu estava interessado no momento em que imagens e modelos podem anteceder a experiência e participar de sua organização. Aqui estou olhando para uma versão mais cotidiana e operacional do mesmo problema.


Às vezes desenhamos para compreender. Depois começamos a construir segundo o desenho.


Os modelos que não lembramos de ter construído


Até aqui falei principalmente de modelos relativamente visíveis: organogramas, mapas, formulários, metas, avaliações, diagramas. Eles possuem uma vantagem enorme. Podemos colocá-los sobre a mesa. Fica mais difícil quando a representação está na nossa cabeça e já não lembramos muito bem de onde veio.


Kenneth Craik propôs, ainda em 1943, que carregamos algo parecido com modelos em pequena escala da realidade externa e das nossas próprias possibilidades de ação. A ideia seria desenvolvida de outras maneiras dentro da Psicologia Cognitiva, inclusive no trabalho posterior de Philip Johnson-Laird sobre modelos mentais.


Não quero abrir aqui uma discussão inteira sobre modelos mentais, porque isso levaria o texto para outro lugar e provavelmente renderia um escrito próprio. Quero aproveitar apenas uma consequência simples. Para agir, antecipar e interpretar, precisamos representar alguma coisa.


Quando você entra numa sala de aula, provavelmente já carrega expectativas sobre como uma sala funciona. Existe alguém que ensina, pessoas que aprendem, lugares onde cada um costuma ficar, momentos em que se fala, maneiras aceitáveis de interromper, objetos que esperamos encontrar. Você não precisa reconstruir conscientemente esse entendimento toda vez que atravessa a porta.


Entra numa sala muito diferente e parte dessas expectativas fica visível. O mesmo acontece quando começamos num emprego, entramos num relacionamento, conhecemos a família de alguém, viajamos para outro país, assumimos uma posição de liderança ou convivemos com uma pessoa cuja maneira de operar está distante daquilo que aprendemos a esperar.


De repente o mundo não responde direito ao modelo. Isso me leva de volta aos peixes do primeiro texto desta série.


A água mais difícil de perceber pode ser justamente aquela formada por modelos que deixaram de parecer modelos. Ideias de relacionamento, sucesso, profissionalismo, inteligência, família, autoridade, educação, respeito, competência, masculinidade, feminilidade, amizade, maturidade e uma quantidade meio assustadora de outras coisas que aprendemos a reconhecer antes mesmo de decidir conscientemente como gostaríamos de defini-las.


Algumas dessas representações foram ensinadas diretamente. Outras vieram por repetição. Família, escola, trabalho, religião, filmes, livros, propaganda, redes sociais, grupos dos quais participamos, experiências ruins, experiências excelentes, pessoas que admiramos e pessoas de quem tentamos desesperadamente não nos aproximar. Com o tempo, determinados recortes ficam tão familiares que parecem apenas descrição da realidade.


Água.


Como costumo olhar para um modelo


Quando percebo que estou diante de um modelo, costumo começar de maneira quase irritantemente simples: modelo de quê? Depois tento entender quem o construiu e qual problema essa pessoa estava tentando resolver. Algumas representações que parecem absurdas começam a fazer sentido quando encontramos a finalidade original. Outras ficam piores rs.


Procuro o recorte. O que entrou? O que ficou fora? Quais relações foram preservadas? Quais detalhes desapareceram? Essa ausência foi deliberada ou simplesmente ninguém percebeu que aquilo importava?


Depois mexo na escala. O modelo continua funcionando quando aproximo? E quando me afasto? Aquilo que parece explicar uma organização inteira também explica uma equipe? O modelo usado para falar de grupos serve para pessoas? Uma regularidade observada em determinado período continua aparecendo quando aumento a janela de tempo?


Também tento encontrar as condições de validade. Quando isso foi construído? A partir de quais informações? O que mudou desde então? Que acontecimento faria o modelo precisar ser revisto?


E gosto especialmente de uma pergunta: quando o modelo e a realidade divergem, qual dos dois estamos tentando corrigir? Às vezes a resposta correta será a realidade. Um projeto pode mostrar um estado desejado e orientar mudanças concretas. Um protocolo pode existir justamente para alterar uma prática. Um padrão de segurança deve interferir no modo como uma atividade é executada. Um modelo pedagógico pretende organizar uma experiência educacional. Em outras situações, começamos a forçar a realidade para proteger uma representação que já deveria ter sido abandonada.


O funcionário não cabe no modelo de competência, então concluímos rapidamente que o problema está nele. O cliente não segue o comportamento previsto e recebe o rótulo de exceção. A pesquisa contradiz nossa hipótese e procuramos algum motivo para preservar a hipótese. Uma pessoa muda, mas continuamos conversando com a versão dela que guardamos anos atrás.


Modelos também podem ficar queridos. Construímos alguns com muito trabalho. Outros sustentaram decisões importantes durante anos. Certas representações fazem parte da nossa formação profissional ou da maneira como explicamos o mundo para nós mesmos. Abandoná-las pode significar admitir que aquilo que funcionou muito bem durante muito tempo já não funciona.


Tenho uma facilidade considerável para desconfiar dos modelos dos outros. Desconfiar dos meus exige mais esforço.


A própria decupagem que acabei de fazer é um modelo. Referente, recorte, escala, finalidade, tempo e efeito de retorno não estavam esperando dentro do conceito para que eu os descobrisse e colocasse em ordem. Eu os separei dessa maneira porque ajudam no tipo de análise que estou tentando construir aqui.


Outra pessoa poderia dividir diferente. A própria série Elementos do olhar é um modelo do meu modo de observar. Eu separei estrutura, modelo, sistema, processo, indicador e marcador porque essas palavras me ajudam a tornar transmissível uma coisa que, na prática, acontece de maneira muito menos organizada dentro da minha cabeça. Quando estou diante de uma situação real, não abro seis gavetas em ordem e começo pela primeira. Ainda bem, porque seria insuportável conversar comigo rs.


Essas divisões servem para tornar alguma coisa visível. E perdem coisas fazendo isso. Era exatamente essa a promessa do primeiro texto.


A realidade costuma responder


No primeiro post desta série falei sobre áreas aplicadas e sobre minha preferência por instrumentos que consigam sobreviver ao contato com situações reais. Continuo gostando disso porque a realidade costuma ser uma avaliadora pouco preocupada com nosso apego às próprias ideias.


Podemos desenhar um processo maravilhoso que ninguém consegue executar. Construir uma estrutura organizacional impecável que ignora relações de poder já estabelecidas. Elaborar uma classificação elegante que deixa metade dos casos importantes do lado de fora. Criar uma previsão sofisticada que falha justamente nas condições em que mais precisamos dela.


O fracasso também informa. Quando um modelo falha, posso tentar entender onde. O recorte ficou pobre? A escala estava errada? As relações mudaram? As premissas expiraram? Usei uma representação construída para uma finalidade em outra completamente diferente? Alguma coisa relevante ficou invisível?


Às vezes o modelo precisa de um pequeno ajuste. Às vezes precisamos jogá-lo fora. E algumas vezes descobrimos que a realidade diante de nós é muito mais desorganizada do que gostaríamos e que modelo nenhum vai nos poupar do trabalho de conviver com isso.


Continuo usando modelos o tempo inteiro. Provavelmente mais do que percebo. Preciso deles justamente porque não consigo manter toda a complexidade de uma situação diante dos olhos ao mesmo tempo.


Essa limitação nos leva bastante naturalmente ao próximo elemento da série. Quando começamos a perceber que partes se relacionam, produzem efeitos umas sobre as outras, dependem de outras partes e mudam de comportamento conforme essas relações se reorganizam, uma representação isolada começa a ficar pequena. Aí teremos que conversar sobre sistemas.


Por enquanto, quando alguém disser que fulano é um modelo de sucesso, acho que já temos algumas perguntas a mais para fazer.


Referências

AZEVEDO, Francisco Ferreira dos Santos. Dicionário analógico da língua portuguesa: ideias afins / thesaurus. 3. ed. Rio de Janeiro: Lexikon, 2019.

BOX, George E. P.; DRAPER, Norman R. Empirical Model-Building and Response Surfaces. New York: John Wiley & Sons, 1987.

CRAIK, Kenneth J. W. The Nature of Explanation. Cambridge: Cambridge University Press, 1943.

INFOPÉDIA. Modelo. Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa. Porto: Porto Editora, [s.d.]. Acesso em: 1 out. 2026.

JOHNSON-LAIRD, Philip N. Mental Models: Towards a Cognitive Science of Language, Inference, and Consciousness. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1983.

KORZYBSKI, Alfred. Science and Sanity: An Introduction to Non-Aristotelian Systems and General Semantics. Lancaster: International Non-Aristotelian Library Publishing Company, 1933.

RAMALHO, Luis Ricardo Teiga. O Mapa antes do Território. Escritos & Fragmentos, 27 set. 2026.

RAMALHO, Luis Ricardo Teiga. Uma forma de olhar - Estrutura. Escritos & Fragmentos, 15 set. 2026.

RAMALHO, Luis Ricardo Teiga. Uma forma de olhar. Escritos & Fragmentos, 9 set. 2026.

STACHOWIAK, Herbert. Allgemeine Modelltheorie. Wien; New York: Springer, 1973.

Instagram