Luis Ricardo Teiga Ramalho
Quem sou eu
Boa parte do que sou hoje começou muito antes de eu perceber. Sou da chamada “Geração Y”, ou dos Millennials, e certamente o Zeitgeist dessa época foi essencial para a minha constituição. Nasci e cresci em Ourinhos, uma cidade do interior do Estado de São Paulo que faz divisa com o Paraná. Sou filho único e adotivo. Meus pais sempre disseram que ter a mim era suficiente. Ainda assim, sinto falta dos irmãos e irmãs que nunca tive. Seria injusto, porém, dizer que ser filho único trouxe apenas consequências ruins. Hoje, algumas décadas depois, percebo que esse foi provavelmente um dos motivos de eu ter me interessado tanto pelas pessoas e de valorizar sua presença. Quando se é filho único, de alguma forma você constrói seu próprio mundo, à sua maneira, e as pessoas acabam sendo uma espécie de visitantes. Algumas chegam trazendo surpresas e coisas boas para esse mundo, outras apenas passam por ele e, como não poderia ser diferente, algumas também deixam coisas não tão agradáveis pelo caminho.
A aurora da minha vida é algo que guardo com profundo carinho. Tive uma bela infância, com pais que me proporcionaram uma fase bastante lúdica, cercada de experiências que foram preponderantes para o meu desenvolvimento. Brinquedos, videogames e mais videogames, uma paixão que permanece até hoje. Os esportes também estavam muito presentes. Praticava karatê, natação, futebol e, nisso, tive a oportunidade de fazer muitos amigos. A imaginação também ocupava bastante espaço. Lia muitos livros de fantasia e ficção, quadrinhos e mangás, coisas que, assim como os videogames, continuam presentes na minha vida. Foi uma época muito boa, aquela das locadoras de VHS e das fitas de videogame. Assistia a muitos filmes, além de, é claro, muitos animes. Gratidão é o que sinto por ter tido acesso a todas essas coisas. No meu caso, essa gratidão é dupla.
Também devo dizer que fui privilegiado. Tive a oportunidade de receber uma boa educação, estudei em bons colégios, aprendi idiomas e tive incentivos que me permitiram explorar interesses muito diferentes. Um desses interesses apareceu cedo. Desde criança cultivo o hábito da escrita. Comecei com pequenas histórias, inventando universos, mundos e personagens. Algumas desapareceram pelo caminho. Outras ficaram comigo. Uma delas permanece há mais de vinte anos. Já adulto, entendi que esse movimento está muito relacionado ao meu amor pelo gesto de criar, de dar à luz a algo diferente. Com o tempo percebi que isso também se tornou parte do meu modo de ser, de operar e de olhar para as coisas. Nem tudo o que julgamos saber sobre nós mesmos se apresenta de forma simples. Existe sempre uma superfície e, quando decidimos explorá-la um pouco mais, acabamos encontrando coisas que estavam ali há muito tempo e que são essenciais a nós. A partir disso, passamos também a nos observar de outra maneira.
E foi assim, e continua sendo até hoje. Enquanto a escrita me acompanhava, eu inevitavelmente crescia e tinha pela frente uma vida profissional, uma carreira para construir. Ela acabou seguindo em uma direção diferente desse meu movimento natural, embora ele nunca tenha deixado de estar ali.
Me formei em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, com ênfase em Gerenciamento de Sistemas, pela FATEC Ourinhos. O período da faculdade foi riquíssimo em termos de aprendizagem, amores, excelentes professores e tudo aquilo que faz parte da atmosfera desse momento na vida de uma pessoa. A conclusão dessa etapa foi emocionante e marcante para mim. Tive a oportunidade de receber o prêmio de melhor aluno da graduação, ganhei calorosos abraços e uma placa de metal que guardo até hoje. Em 2009, com a intenção de ampliar meu campo de atuação, mudei-me para São Paulo e, durante 15 anos, construí uma carreira em Tecnologia da Informação. Passei por diferentes empresas e responsabilidades, começando como Analista Jr. até chegar à gestão e à direção de Tecnologia da Informação. Foi uma carreira longa, intensa e importante para mim. A tecnologia moldou profundamente minha maneira de pensar. Aprendi a decompor problemas, procurar relações, enxergar sistemas, identificar padrões e desconfiar de respostas simples para problemas complexos. Também descobri que a elegância de uma solução muitas vezes está justamente na sua simplicidade e na forma como ela cumpre sua função.
Curiosamente, foi justamente esse modo de pensar que começou a me levar para outros lugares. Durante esse percurso também me tornei professor. Por mais de 10 anos fui professor em cursos preparatórios para certificações oficiais em Governança de TI, Gerenciamento de Serviços, Gestão de Projetos, Processos, normas, metodologias e frameworks. Ensinar acabou se tornando uma experiência muito mais importante na minha vida do que eu imaginava quando comecei.
Existe algo que sempre me fascinou no processo de pegar algo complexo, compreendê-lo e depois encontrar uma maneira de explicá-lo para outra pessoa sem reduzir sua complexidade. Além disso, havia algo especialmente interessante no fato de eu trabalhar com aqueles temas no mundo corporativo e depois falar sobre eles em sala de aula. As coisas se retroalimentavam e me surpreendiam. Aquilo que eu vivia na prática tornava os conteúdos mais cristalinos, mais palpáveis, e ensinar e trocar com os alunos também me fazia compreender melhor aquilo que eu fazia. Isso consolidou em mim a visão da importância da vivência prática do professor. Quando ela não existe, acredito que sempre deixa de tocar em alguma coisa. Também me fez pensar sobre o próprio ofício de ensinar e sobre aquilo que um professor precisa deixar para trás quando entra em uma sala de aula. Talvez venha daí boa parte da maneira como estudo até hoje: ler, observar, estudar, investigar, aprender, compartilhar e reforçar. Tento não perder de vista outras perspectivas e, principalmente, não deixar que tudo aquilo que acompanha uma ideia me impeça de olhar para o que ela tem a oferecer. A teoria nasce de algum contato com o mundo. Toda prática carrega experiência, tentativa, erro, trabalho e um bocado de suor. Por isso, mesmo quando discordo dela ou encontro seus limites, procuro reconhecer o valor que existe ali.
Com o tempo, entretanto, percebi que minha curiosidade estava mudando de direção. Eu já vinha me interessando por outros caminhos e, no início, procurei desbravá-los por conta própria. Lia livros por vezes de forma inadequada, digo isso no sentido de enfrentar leituras que exigiam conhecimentos e repertórios que eu ainda não tinha. Mesmo assim, insistia. Nessa época consegui reter alguma coisa até resolver facilitar o processo para mim. Me inscrevi em um bocado de programas de pós-graduação e naveguei por diferentes temas, provando um pouco do sabor de cada um e tentando compreender quais realmente estavam em consonância comigo. Arte, História, Literatura, Contos de Fadas, Mitologia Comparada, Religião Comparada, Filosofia, Semiótica e Análise do Discurso, além de uma formação em Psicanálise e outra em Psicologia Complexa, são alguns dos caminhos que posso citar aqui. A tecnologia continuava interessante, mas comecei a me interessar cada vez mais por outro sistema, infinitamente mais estranho, contraditório e imprevisível: nós e o universo.
Aos poucos, Psicologia, Filosofia e Sociologia deixaram de ser interesses paralelos e passaram a ocupar o centro da minha atenção. Percebi que queria me aprofundar nelas com a mesma seriedade com que havia me dedicado à Tecnologia. Então fiz algo que provavelmente pareceria pouco sensato para muita gente. Depois de aproximadamente 15 anos de carreira, deixei aquele caminho e redirecionei minha vida acadêmica e profissional para as Ciências Humanas. Não parti do zero. Levei comigo muito do que a Tecnologia havia me ensinado, principalmente como método, além das lições, muitas vezes agridoces, do meio corporativo, um território capaz de ensinar bastante sobre trabalho, relações humanas, poder e sobre o lugar que ocupamos dentro das estruturas.
Tenho convicção de que essas três áreas do conhecimento não chegaram por acaso. Se me permito alguma poesia, creio que elas esperavam por mim. Sempre tive dificuldade em compreender o conhecimento dividido em territórios isolados. A Psicologia, por meio de sua investigação sobre a subjetividade e o comportamento, me leva à Filosofia, terreno fértil para a formulação de questões, reflexões e para o próprio nascimento de muitas das perguntas que deram origem às ciências. Dali, inevitavelmente, chego à Sociologia, que me devolve à História, à Política, à Antropologia, à Arte e à Literatura. Em algum momento, tudo começa a conversar. E eu gosto dessa conversa.
Isso fez com que eu me aproximasse da ideia de complexidade de Edgar Morin. O mundo raramente respeita as divisões que criamos para estudá-lo. As disciplinas são necessárias, mas a realidade costuma atravessar suas fronteiras sem nenhum tipo de dó ou aviso. Acho elegante quando isso acontece. É a realidade operando. Não tenho a pretensão de encontrar uma teoria capaz de explicar tudo o que envolve o indivíduo e o mundo. Interessa-me compreender o que diferentes lentes permitem enxergar e também aquilo que inevitavelmente deixam escapar. Confesso que esse é um vício adquirido na Tecnologia: nenhuma engenharia ou arquitetura deveria ser confundida com o sistema inteiro.
Desde 2002 trabalho em uma saga de fantasia e ficção que me acompanhou em diferentes fases da minha vida. Personagens mudaram, universos foram reconstruídos, ideias desapareceram e outras surgiram. Eu também mudei bastante nesse intervalo, então seria estranho se a obra tivesse permanecido intacta. O que sei até agora é que ela ainda não encontrou seu fim. Às vezes penso que talvez eu nem queira que encontre.
Além dela, escrevo contos, poemas, ensaios e participo de antologias. Alguns desses trabalhos estão aqui na página de livros. Em geral, minha escrita esteve muito ligada à fantasia e à ficção científica, mas atualmente venho, aos poucos, entrando em outros territórios, com textos mais teóricos e conceituais. A literatura, para mim, sempre foi outra forma de investigar muitas das mesmas coisas que procuro compreender através dos estudos: identidade, morte, desejo, memória, poder, sofrimento, relações humanas e a estranha experiência de existir.
E é justamente nesse cruzamento que este blog aparece. Não pretendo transformá-lo em uma vitrine perfeitamente organizada de certezas. Quero que seja um lugar onde eu possa escrever sobre aquilo que estudo, aquilo que penso, aquilo que crio e, eventualmente, aquilo sobre o que ainda não consegui decidir o que penso. Psicologia, Filosofia, Sociologia, literatura, cultura, tecnologia, comportamento, arte e qualquer outro assunto que consiga atravessar essas fronteiras provavelmente aparecerá por aqui em algum momento. Passei muitos anos construindo uma carreira. Agora estou construindo outra coisa, da qual ainda tenho apenas um sutil vislumbre e, curiosamente, gosto de não saber exatamente onde ela vai me levar.