Escritos & Fragmentospor: Luis Ricardo Teiga Ramalho

Psicologia · Subjetividade

Individualidade por adesão

Todo mundo carrega uma parte que não combina com a própria narrativa. Este é um texto sobre o que fazemos com ela quando pertencer a um grupo exige coerência. E sobre o que fica quando ninguém está olhando.

Diluição poética
Diluição poética

Será que existe uma essência, alguma coisa verdadeiramente nossa, tão particular que ninguém conseguiria reproduzi-la?


A própria pergunta já me parece um pouco comprometida pela palavra “essência”, que arrasta consigo séculos de metafísica e aquela velha promessa de que existiria alguma coisa fixa por baixo de tudo o que muda em nós, anterior à experiência, esperando apenas ser encontrada. Não sei se precisamos assumir tanto para chegar ao ponto que me interessa. Parece suficiente reconhecer que uma pessoa nunca coincide por completo com aquilo que consegue dizer sobre si mesma, muito menos com aquilo que os outros conseguem dizer a seu respeito. Sempre existe uma diferença entre a pessoa concreta e a descrição que fazemos dela, mesmo quando a descrição parece bastante precisa.


Temos um DNA particular, impressões digitais, íris e uma disposição corporal que ninguém possui exatamente da mesma maneira, só que nossa singularidade evidentemente não termina no corpo. Tivemos pais que ninguém mais teve como nós tivemos, atravessamos acontecimentos numa sequência que não voltará a se repetir, conhecemos determinadas pessoas em momentos que poderiam ter sido outros e tomamos decisões que mudaram tudo sem saber, na época, o tamanho que teriam. Também carregamos vergonhas muito específicas, relações que nunca resolvemos direito, lembranças que provavelmente não significariam nada para quase todo mundo e obsessões que não renderiam uma linha sequer numa biografia respeitável. Alguns medos permanecem sem origem muito clara, enquanto encontros aparentemente banais ganham, anos depois, um peso que ninguém teria previsto.


É possível chamar tudo isso de essência, singularidade, ipseidade ou simplesmente existência concreta. O nome, para mim, importa menos do que uma constatação simples: quando terminamos de descrever alguém, alguma coisa continua faltando. A descrição pode ser excelente, detalhada, inteligente, psicologicamente sofisticada e ainda assim não consegue capturar tudo. Sempre sobra alguma coisa. Tenho a impressão de que nossa época está cada vez menos disposta a conviver bem com essa sobra.


Nunca tivemos tantas ferramentas para mostrar quem somos. Uma pessoa comum consegue hoje expor ao mundo o que pensa, sente, deseja, consome, rejeita, admira, veste, escuta, lê, apoia ou considera digno de indignação com uma facilidade difícil de imaginar poucas décadas atrás. Em princípio, tanta possibilidade de expressão deveria produzir uma variedade quase absurda de formas de viver e se apresentar, só que às vezes encontramos justamente o contrário. Quanto mais se fala em autenticidade, mais aparecem fotografias feitas dos mesmos ângulos, roupas organizadas pelas mesmas referências e apartamentos que parecem ter passado pelo mesmo painel de inspiração antes de receber moradores.


As paredes mudam pouco, a iluminação indireta reaparece, certos objetos ocupam posições curiosamente familiares, até a planta num canto parece obedecer a alguma convenção que ninguém chegou a escrever. Mudam os moradores, algumas cores, um livro sobre a mesa, um detalhe ou outro, porém em determinados casos fica a impressão de que a casa chegou pronta antes da pessoa. Não acho que alguém perca sua singularidade porque gosta de parede clara, luz indireta ou de determinada estética. Eu mesmo provavelmente gostaria de várias dessas casas. O que me interessa é a facilidade com que aquilo que chamamos de expressão pessoal começa a seguir códigos bastante reconhecíveis.


A linguagem passa por algo parecido. Usamos palavras semelhantes para explicar indignações semelhantes, compartilhamos repertórios, referências, modos de falar de sofrimento e até maneiras relativamente previsíveis de demonstrar espontaneidade. Algumas conversas duram poucos minutos antes de começarmos a suspeitar que tipo de conteúdo aquela pessoa consome, quais autores conhece, de quais grupos provavelmente se aproxima e até como deverá se posicionar diante de assuntos que ainda nem chegaram a aparecer. Evidentemente podemos errar. Pessoas parecidas também tendem a compartilhar gostos e opiniões. Ainda assim, o fato de esse tipo de previsão funcionar tantas vezes já deveria despertar alguma curiosidade.


No meio disso tudo continuamos falando muito de autenticidade, o que produz uma situação estranha. Transformamos a própria autenticidade numa linguagem compartilhada. Quando essa linguagem se espalha, passa a criar sinais de reconhecimento, maneiras esperadas de usá-la, referências que começam a vir juntas e formas consideradas mais legítimas de expressão. Aos poucos, aquilo que deveria comunicar uma diferença também começa a produzir padrão. Ninguém precisa escrever um manual para isso acontecer. Basta que as pessoas aprendam umas com as outras quais gestos são compreendidos, quais palavras funcionam, quais referências geram reconhecimento e quais nos colocam imediatamente dentro de algum universo conhecido.


Hoje, muitas casas parecem revelar tendências antes de revelar moradores, enquanto algumas pessoas acabam fazendo algo parecido com os próprios repertórios. Primeiro descobrimos a qual universo elas pertencem. Depois, com algum esforço, começamos a descobrir quem está ali dentro. A curadoria também deixou de atuar somente naquilo que queremos exibir e entrou naquilo que precisa parecer espontâneo. Essa diferença importa porque até a naturalidade pode começar a obedecer a expectativas que aprendemos sem perceber.


Seria muito fácil transformar essa crítica numa defesa ingênua de que categorias são ruins ou de que cada pessoa deveria abandonar qualquer tentativa de classificação para “ser quem realmente é”. Não penso assim. Categorias são necessárias porque pensar exige algum grau de categorização. Sem conceitos, seria difícil distinguir fenômenos, reconhecer padrões ou comunicar boa parte do que vivemos. Categorias políticas, sociais e psicológicas também deram nome a experiências que muita gente atravessou durante anos de forma solitária, sem conseguir explicar direito o que acontecia. Isso tem um valor enorme.


Às vezes, encontrar uma palavra reorganiza uma experiência inteira. Aquilo que parecia um problema exclusivamente individual passa a ser reconhecido em outras pessoas, histórias começam a se aproximar, surgem referências e uma sensação de isolamento pode diminuir. Uma categoria pode ajudar alguém a compreender a própria dor, construir comunidade e finalmente perceber que certas experiências não existem apenas dentro dela. Esse valor é concreto. Qualquer crítica séria à identidade precisa reconhecer isso antes de seguir adiante.


A relação se complica quando muda de direção e a categoria, criada para ajudar a compreender uma pessoa, começa aos poucos a oferecer também a forma correta de essa pessoa se compreender. Uma lente permite enxergar determinadas coisas com muito mais clareza, só que continua sendo uma lente. Esquecemos disso com facilidade quando passamos tempo demais olhando através dela. O risco aparece quando conceitos deixam de ajudar a organizar a experiência e aquilo que fica de fora começa a ser tratado como ruído, erro ou alguma parte inconveniente que precisa desaparecer para que a explicação continue funcionando.


Um vocabulário que inicialmente ajuda alguém a compreender a própria dor também pode oferecer um roteiro para organizá-la. A pessoa descobre o nome daquilo que sente e encontra junto com esse nome uma comunidade, autores, relatos semelhantes, interpretações recorrentes e maneiras mais ou menos consolidadas de contar aquela experiência. Naturalmente também aprende a linguagem daquele espaço, percebe quais referências circulam com mais força, que causas mobilizam o grupo, quais opiniões produzem aproximação e quais geram um desconforto difícil de disfarçar.


Esse processo dificilmente acontece como uma decisão consciente. Ninguém acorda numa manhã e resolve remodelar a personalidade para caber melhor numa comunidade. Normalmente é bem mais banal. Primeiro uma linguagem descreve alguma coisa que você reconhece em si. Depois você começa a observar a própria vida usando aquela linguagem. Com o tempo, percebe quais partes da sua experiência entram com facilidade naquele vocabulário, quais exigem explicação e quais ficam meio deslocadas. É nesse ponto que a sobra volta a aparecer. Junto dela vem uma tentação bastante humana de aparar aquilo que complica demais a história.


Grupos sempre tiveram seus códigos, rituais e maneiras próprias de reconhecer pertencimento. Isso não começou com redes sociais, muito menos com algoritmos. O que me parece particular no presente é o fato de parte dessa conformidade ter adquirido aparência de descoberta pessoal. Existe uma diferença importante entre dizer “eu faço parte deste grupo” e afirmar “eu descobri quem realmente sou”, porque a segunda frase transforma uma adesão também social numa revelação íntima sobre identidade.


A estranheza aparece quando essa descoberta profundamente pessoal começa, pouco depois, a produzir uma linguagem quase idêntica à de milhares de outras pessoas que chegaram individualmente à mesma conclusão. Em determinados casos, basta saber quais palavras alguém escolhe para falar de si e já conseguimos arriscar sua posição sobre questões políticas, estéticas ou morais que nunca chegaram a ser discutidas. Isso não torna toda identidade falsa nem faz do compartilhamento de repertório algum tipo de fraude. Ainda assim, vale prestar atenção quando uma descrição da pessoa começa a funcionar também como mecanismo de previsão.


Toda linguagem perde alguma coisa quando transforma experiência em palavra. Quando digo “luto”, consigo nomear algo que nunca aconteceu exatamente da mesma maneira com duas pessoas. A palavra continua indispensável, porque sem ela seria muito difícil conversar sobre perda, reconhecer experiências parecidas ou começar a explicar aquilo que sentimos. Só que “luto” não contém a experiência inteira de ninguém. O mesmo vale para amor, medo, vergonha, desejo, solidão e praticamente qualquer outra palavra usada para organizar uma experiência humana.


Um mapa funciona de maneira parecida. Para cumprir sua função, precisa apagar uma quantidade enorme de detalhes; se trouxesse tudo, deixaria de ser mapa. Gostamos deles justamente porque organizam, dão direção e diminuem a sensação de estar diante de alguma coisa que não sabemos explicar direito. Existem mapas identitários, emocionais, políticos, psicológicos, sociais e de personalidade, cada um oferecendo alguma forma de orientação. Muitos ajudam de verdade. A dificuldade aparece quando deixamos de usá-los como mapas e começamos a exigir que o território se comporte exatamente como eles preveem.


Existe ainda uma comodidade difícil de ignorar nisso tudo. Não saber exatamente quem somos é desconfortável. Sempre achei curiosa essa expectativa contemporânea de que cada pessoa seja capaz de responder rapidamente quem é, o que defende, quais são seus valores, a que grupos pertence e que tipo de pessoa acredita ser. Tudo parece pedir uma descrição razoavelmente organizada. Quanto melhor essa descrição cabe em poucas categorias, mais fácil se torna colocá-la em circulação.


Criamos sistemas de classificação cada vez mais sofisticados ao mesmo tempo que parecemos demonstrar menos tolerância àquilo que não se encaixa direito em classificação nenhuma. Nem é preciso que alguém ordene obediência. Em muitos casos, “expresse-se” funciona de maneira bem mais eficiente. O convite parece aberto e livre, só que a expressão acontece dentro de um ambiente onde já existem categorias, comunidades, produtos, discursos, estéticas e recomendações esperando pela pessoa.


Existe também uma dimensão econômica evidente. Aquilo que pode ser classificado é mais fácil de prever. Quando alguma coisa se torna previsível, plataformas conseguem oferecer publicidade, conteúdo, produtos e recomendações com muito mais eficiência. Um sistema não precisa descobrir quem você é num sentido profundo nem resolver o problema filosófico da identidade. Basta perceber que pessoas com comportamentos parecidos com os seus costumam clicar em determinadas coisas. Muitas vezes acerta. O fato de acertar é justamente o que torna o mecanismo tão valioso.


A singularidade funciona pior nesse ambiente porque pessoas concretas são irregulares. Mudamos de ideia, mantemos contradições, desenvolvemos interesses que não combinam muito com a imagem que apresentamos e às vezes queremos coisas que nem nós mesmos sabemos justificar. Um algoritmo trabalha melhor quando consegue concluir que “pessoas como você gostam disso”, do mesmo modo que um grupo se torna mais previsível quando acredita que “pessoas como nós pensam assim”. Essa probabilidade em si não me incomoda, porque pessoas parecidas realmente tendem a compartilhar experiências e gostos. A complicação aparece quando aquilo que era apenas provável começa a ser esperado.


A gente percebe muito rápido quais partes de nós recebem aprovação e quais produzem silêncio. Aprende que algumas dúvidas podem ser apresentadas com tranquilidade, enquanto outras precisam vir acompanhadas de uma defesa quase preventiva; percebe que determinadas opiniões exigem longas explicações, enquanto outras são aceitas antes mesmo de terminarmos a frase. Também aprendemos quais emoções parecem esperadas diante de certos acontecimentos e quais reações colocam imediatamente alguma coisa sob suspeita.


Como pertencimento é agradável e estranhamento possui um custo real, pequenos ajustes começam a aparecer. Não estou falando necessariamente de mentira ou de alguém inventando deliberadamente uma personalidade. É algo bem mais simples. Certas coisas deixam de ser ditas, outras são reformuladas antes de chegar à conversa, enquanto algumas partes da experiência recebem uma atenção enorme justamente porque confirmam aquilo que a pessoa já aprendeu a dizer sobre si. Outras vão ficando de lado, sem encaixe muito claro. Em algum momento pode se tornar difícil distinguir quanto daquela identidade está organizando uma vida e quanto já começou a apará-la.


Por isso tenho dificuldade em aceitar a ideia de que autenticidade seja encontrar um rótulo suficientemente preciso para explicar uma existência inteira. Prefiro a possibilidade de que nenhum rótulo consiga fazer isso. Sempre vai sobrar alguma coisa. Nessa sobra entram justamente nossas contradições, os gostos que preferimos não justificar, desejos que atrapalham a autoimagem, sentimentos pouco nobres e pensamentos que provavelmente não apareceriam numa apresentação pública sobre quem acreditamos ser.


A covardia pode aparecer numa pessoa corajosa, um preconceito pode permanecer em alguém que se considera esclarecido, o egoísmo pode surgir em quem costuma ser generoso e a inveja não parece demonstrar nenhum respeito especial pela quantidade de livros que alguém leu. Isso não transforma automaticamente ninguém num caso excepcional de perversidade. É só uma constatação pouco elegante sobre seres humanos, que costumam ser bem menos coerentes do que as narrativas que constroem a respeito de si.


A situação fica mais complicada quando alguém passa tempo demais eliminando tudo o que contraria a personagem que aprendeu a sustentar. A parte excluída não desaparece necessariamente; apenas perde espaço na narrativa oficial e continua existindo de outras maneiras, agora sem linguagem ou convertida em algo que precisa ser escondido até da própria pessoa. Nesse ponto, a identidade pode deixar de organizar a experiência e começar a empobrecê-la.


Tenho a impressão de que parte dessa sensação contemporânea de esvaziamento pode nascer justamente daí. Costumamos falar em falta de identidade, porém existe também a possibilidade de um excesso: identidades tão coerentes, explicadas, classificadas e apresentáveis que quase não sobra espaço para aquilo que ainda não entendemos sobre nós. Uma pessoa pode explicar perfeitamente quem é num perfil, apresentar seus valores, gostos, referências, causas e posições, sem saber muito bem o que sobra quando ninguém está olhando.


Isso não exige imaginar um indivíduo puro, independente da cultura, dos grupos ou das relações. Uma pessoa assim sequer existiria. Somos constituídos pelas pessoas que encontramos, pelas linguagens que aprendemos, pelas comunidades às quais pertencemos, pelas tradições que herdamos e até pelas coisas contra as quais decidimos nos rebelar. Boa parte do que chamamos de “eu” nasceu justamente no encontro com alguma coisa que veio de fora.


Para mim, importa conservar algum espaço entre pertencer e desaparecer dentro do pertencimento. Um conceito deveria ajudar uma pessoa a compreender a própria vida sem exigir que essa vida seja constantemente ajustada para continuar confirmando o conceito. O mesmo vale para grupos. Uma comunidade que consegue conviver apenas com versões perfeitamente coerentes de seus integrantes não está exatamente aceitando pessoas; está aceitando adequações. Pessoas reais costumam dar mais trabalho do que isso.


Por esse motivo, me interessa uma forma de rebeldia muito menos atraente do que aquelas que já chegam acompanhadas de estética, trilha sonora, referências e vocabulário próprios. Recuperar alguma singularidade hoje pode ter relação com suportar, de vez em quando, a experiência de não ser compreendido imediatamente, frustrar alguém que tinha certeza de saber qual seria sua resposta, admitir que ainda não formou opinião sobre determinado assunto ou mudar de ideia sem transformar a mudança numa grande defesa pública da própria coerência.


Pode significar também deixar uma dúvida existir antes de convertê-la em posicionamento, gostar de alguma coisa que não combina muito bem com o restante da sua prateleira ou preservar alguma região da vida que ainda não tenha virado conteúdo, descrição ou argumento sobre quem você é. Nada disso produz uma identidade particularmente elegante, muito menos uma imagem fácil de apresentar. Existe alguma coisa importante justamente nessa dificuldade.


Se ainda vale a pena usar a palavra “singularidade”, eu a procuraria menos numa definição perfeita de quem somos e mais na distância que nunca conseguimos eliminar entre uma pessoa concreta e todas as tentativas de explicá-la. Somos formados pelas escolhas que fizemos, pelas pessoas que encontramos, pelos grupos aos quais pertencemos e pelas linguagens que aprendemos, mas também pelas hesitações, pelos acidentes, pelas mudanças de rumo e por uma quantidade enorme de coisas que permaneceram sem nome.


Conseguimos dizer muito sobre nós mesmos, o que é bom. Só não sei se deveríamos desejar conseguir dizer tudo.


Uma época tão preocupada em descobrir, declarar e exibir identidades corre um risco curioso: produzir pessoas cada vez mais capazes de explicar ao mundo exatamente aquilo que são, com uma curiosidade cada vez menor sobre aquilo que ainda poderiam se tornar. Depois de tantos catálogos, estéticas, discursos, grupos e explicações prontas sobre quem você deveria ser, a pergunta que me interessa já não é tanto se existe uma essência escondida em algum lugar.


É saber quanto de você continua ali, inclusive nas partes que nunca couberam muito bem na resposta.


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