Escritos & Fragmentospor: Luis Ricardo Teiga Ramalho

Reflexão · Memórias

De volta ao silêncio

Neste primeiro texto, volto à internet da adolescência, aos fotologs, à tecnologia e às formas de exposição que mudaram com o tempo. A partir de lembranças, reflexões e algumas digressões, tento explicar por que decidi criar este espaço e o que pretendo deixar por aqui: ideias, interesses, memórias, contradições e fragmentos de uma vida em movimento.

Montanhas da noite
Montanhas da noite

Sempre me pareceu charmosa a ideia de um blog. Não tinha muito como ser diferente. Nasci em 87, passei parte da adolescência vendo toda uma geração se deslumbrar com a internet. A nostalgia dos sons da conexão discada, mais barata depois da meia-noite e nos fins de semana, até a banda larga, que na minha época era quase sinônimo de “Speedy”, o serviço da Telefônica que poucos podiam pagar. Um “artigo” de luxo.


Nesse momento, a internet era um território menos selvagem, embora longe de ser ingênuo. A própria limitação tecnológica fazia com que as interações fossem menos expositivas. A exposição já existia, claro, só que não como hoje. Você está numa viagem ou num restaurante de que gosta, tira fotos, grava vídeos, posta tudo nas redes sem muita dificuldade. Pronto, está lá! Com minutos de diferença, sem contar a possibilidade de fazer lives, “ao vivo”, em tempo “real”.


Aqui começa um ponto interessante. Raramente direi algo contra a tecnologia. Isso se deve não só ao fato de eu ter formação e carreira na área, mas também à consciência de que a tecnologia é constituída por quem cria e por quem usa. Ambos se retroalimentam. A tecnologia responde a demandas e desejos por meio de suas funções. Poderia entrar na discussão sobre o que as grandes empresas fazem com isso, mas, sinceramente, acho esse assunto chato. Embora importante... pensando bem... não diria chato, mas saturado, circular. Já tem muita gente falando disso por aí, fazendo suas aparições, criticando e depois usando os próprios meios que critica para promover sua participação. Tem também o fato de tecnologia ser uma palavra bem mais ampla, não limitada às descobertas, produtos e serviços surgidos com a computação, depois com a internet. Certas questões são bem mais complexas do que parecem.


Sem contar que é difícil me colocar na posição de crítico da tecnologia, sendo eu um usuário, como dizem, “hardcore”. Difícil para alguém como eu assumir esse papel. Só que aí mora outra pegadinha, dessa vez uma que imponho a mim mesmo: achar que preciso de alguma credencial, de algum lugar de autoridade, para ter o direito de falar sobre uma coisa. Eu me pego exigindo de mim uma espécie de distância que nem sempre faz sentido: a crítica só teria valor se viesse de alguém limpo, de fora, sem as mãos sujas daquilo que critica.


A tecnologia tem suas diferentes formas. Hardware, como dizia o professor da minha faculdade, é aquilo que você chuta! Computadores, periféricos, celulares, tablets, videogames, assistentes e televisões são a parte física da tecnologia. Software, como dizia o mesmo professor, é aquilo que você xinga, a parte que você não toca: aplicações, jogos, ferramentas de escrita e comunicação, edição de imagem e vídeo; mais “recentemente”, as inteligências artificiais.


Tudo isso sempre esteve presente na minha vida, principalmente a partir do momento em que ganhei maior autonomia financeira. Trabalhar, usar e viver em meio a tudo isso foi suficiente para me mostrar a revolução que a tecnologia produz. Ela facilita trabalhos operacionais e árduos, otimiza processos, amplia acessos e faz uma quantidade enorme de outras coisas, boas e ruins, porque dificilmente alguma coisa é neutra. A tecnologia certamente não escapa disso.


Reconheço que essas coisas, com o tempo, deixaram de ser para mim apenas ferramentas ou objetos de interesse. Passaram a fazer parte daquilo de que gosto, da forma como vivo, em alguma medida, de quem eu sou. Também me deram acesso a experiências, conhecimentos e possibilidades muito mais difíceis de alcançar em outros tempos. Nem todo mundo pensa no percurso que alguém no século XIII teria de atravessar para chegar ao que temos hoje em uma hora. Na verdade, as pessoas até romantizam isso. Essa questão cruza outro tipo de fronteira. Para mim, tem muito mais relação com uma palavra: Processo. Certamente falarei sobre isso em outro escrito.


Bem, mas me estendi por aqui. Estávamos onde? Na internet menos selvagem, isso!


Nessa época, algo entre 98 e 2004, as páginas eram mais passivas, documentais, menos interativas. Blogs e fotologs eram comuns, hoje plenamente substituíveis por Instagram, Facebook e TikTok, já que essas plataformas oferecem um formato ao qual as pessoas estão mais habituadas: imagens, vídeos, conteúdo rápido, pouco texto. É como as coisas caminharam. É como elas são hoje, principalmente se falarmos do mainstream.


Ainda assim, sempre achei os blogs charmosos.


Um espaço reservado para que as pessoas compartilhem, pela escrita, seus pensamentos, suas ideias, suas pesquisas ou até fragmentos da própria vida, quase como um diário.


Importante dizer que reconheço todos esses gestos como saudáveis. A escrita é uma forma de arte, uma expressão. Pode, sim, se limitar a um relato, mas também pode adentrar o filosofar, a reflexão, o saber. Palavras e textos conectam pessoas, dão forma a pensamentos. Também gosto da escrita como forma de organizar o que aprendo, consolidar ideias e compartilhar conhecimento. Falo aqui da escrita como instrumento de expressão que invariavelmente carrega consigo alguma dose de exposição. O texto nunca sabe quais olhos vai encontrar. Às vezes, nem os próprios olhos sabem exatamente como o estão vendo. Esse é assunto para outro post.


Entre 2002 e 2004, tive um blog com um grupo de amigos. Na verdade, era um fotolog, nada mais que um blog centrado em fotos. Lembro nitidamente do nome e faço questão de não revelá-lo pelo simples fato de não fazer sentido algum fora daquele grupo, além de ser, convenhamos, um tanto vergonhoso. Coisa de adolescente daquela época, embora parte daquele adolescente ainda resida em mim.


O legal daquele fotolog não era só estar associado a um grupo no meio digital. A questão do pertencimento é preponderante nessa fase da vida, algo que eu já intuía naquela época, mas só fui compreender melhor quando li Elliot Aronson. Anos depois, ao estudar Erik Erikson e seus estágios psicossociais do desenvolvimento, marcados por crises e conflitos próprios de cada fase, a ideia ganhou outro contorno. O que mais me chamava a atenção, porém, era enxergá-lo como um registro histórico daquele grupo, daquelas pessoas, daquela fase da minha vida. Lembro bem de como foi. Começou com todos nós. Em alguns períodos, uns apareciam mais que os outros. Em outros, alguns sumiam por um tempo e depois voltavam, enquanto outros simplesmente nunca mais apareceram.


Até que houve, em algum momento, um último post. A vida começou a acontecer em outra fase, por outros caminhos. Aquela página que usávamos para registrar o grupo na internet acabou deixando de existir.


Acabou.


O que ficou foi o prazer daqueles dias, daquela fase.


A memória permaneceu.


Chegamos a 2026.


Quem escreve agora é um bicho diferente, um animal transformado não só pela natureza, mas pelas circunstâncias da vida. Circunstâncias que neste momento me parecem férteis e promissoras.


Sou alguém presente nas redes sociais, ainda que de forma tímida. No ano passado, abri uma nova conta no Instagram, @luisricardo.teigaramalho. Lá compartilho minhas leituras, meu percurso de estudos e pesquisas, livros e outras coisas que gosto de consumir, algumas ideias desenvolvidas em carrosséis, além de paisagens de diferentes cantos de São Paulo.


Um ponto importante: as pessoas podem me dar mil argumentos para não gostar de São Paulo, mas eu amo essa cidade do mais fundo do coração. Algo me diz que esse amor será permanente. Esse movimento de criar o Instagram, assim como outras iniciativas em que pretendo me envolver mais para frente, nasceu de uma vontade que aos poucos virou planejamento. Reconheço-me como alguém organizado, que procura se orientar no curto, no médio, principalmente no longo prazo, dentro do que é possível e do que as circunstâncias permitem.


O blog também faz parte desse planejamento.


O que é ele? Posso dizer que é um espaço mais silencioso, menos barulhento, que desperta em mim um estado de calma. Isso se deve principalmente ao fato de a escrita estar intimamente ligada à minha centelha, à minha forma de ser, de ler o mundo e de observar as personagens que o habitam. Tem também outro motivo, ligado à palavra “monitoramento”. Pensei até em usar “vigilância”, mas acho forte demais. Pensem comigo: quando produzimos um conteúdo, quando expomos algo, claramente não existe só a intenção do registro. Existe também a do reconhecimento. Por mais que me digam o contrário, creio que isso seja incontornável. Somos seres sociais. Olha, nem sempre isso me deixa feliz... rs.


Saber o quanto estamos gerando de impacto no outro, ou o quanto da atenção dele chega até nós, é algo que ao mesmo tempo conforta e preocupa. Mesmo consciente disso, também não escapo dessa dinâmica. Só que neste blog será diferente. Likes não fazem parte daqui. Simplesmente não existem por aqui. Rostos também não. Por aqui serão caracteres. No máximo, algumas imagens, vídeos com conteúdos que eu queira indicar ou comentar.


A música também terá seu espaço. Tenho pensado em colocar uma ao fim de cada post. Pode ser aquela que eu estava ouvindo enquanto escrevia, alguma ligada ao assunto ou simplesmente uma música de que gosto. É um espaço para você, que não me conhece ou já me conhece, enxergar outro ângulo de quem eu sou: parte de como penso, do que gosto, do que não gosto, dos assuntos que me interessam, das áreas e dos temas com que trabalho. Ainda assim, essas coisas não vão aparecer diretamente por aqui. Não pretendo criar nenhum tipo de ficha, ao menos não agora. Tudo estará diluído, em fragmentos, como o próprio nome do blog sugere. Textos, recortes, ideias, interesses, contradições, coisas que vão permanecer e outras que podem mudar com o tempo. Pode ser justamente isso que reste quando tentamos registrar uma pessoa: fragmentos.


O que posso prometer é que vou me esforçar para chegar o mais perto possível daquilo que significa ser uma pessoa.


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