Escritos & Fragmentospor: Luis Ricardo Teiga Ramalho

Sociologia · Cultura

Geração Silenciosa, Boomers, X, Millennials, Z e Alpha: de onde vieram esses nomes?

De onde vieram nomes como Geração Silenciosa, Baby Boomers, X, Millennials, Z e Alpha? O texto percorre a origem desses rótulos e questiona até que ponto eles realmente explicam as pessoas que tentam definir.

Ilustração de uma multidão com rostos de pessoas de diferentes idades e aparências.
Por: David Labi - Founder and Director of Good Point Agency

É normal estar na internet e se deparar com mensagens falando sobre como a Geração Z é considerada nativa digital, preocupada com a busca por propósito, mais atenta à saúde mental ou menos interessada em seguir modelos tradicionais de carreira. Do outro lado aparecem os Baby Boomers, normalmente descritos como pessoas de trajetórias profissionais mais lineares, orientadas para conquistas materiais consideradas tradicionais, como casa própria, carro ou uma aposentadoria sólida. As descrições variam bastante, mas a lógica quase sempre é parecida: primeiro aparece o nome da geração, logo depois vem uma lista de características que supostamente ajuda a explicar milhões de pessoas.


Sempre me chamou a atenção a facilidade com que usamos esses nomes. Às vezes parece que surgiram de algum conselho ou consenso universal responsável por definir quem seriam essas pessoas. Geração Silenciosa, Baby Boomers, Geração X, Millennials, Geração Z, Alpha. A própria sequência é meio estranha quando prestamos atenção nos nomes. Parece uma tabela destinada a dividir o tempo para encaixar cada pessoa no intervalo correspondente ao seu nascimento. Você nasce dentro de determinado conjunto de anos, recebe um nome, algumas características, certos comportamentos esperados e até, dependendo da época, uma coleção de defeitos ou, sendo mais justo, traços atribuídos ao grupo inteiro. Quanto a isso, fique tranquilo: ninguém organizou tudo previamente de modo sistemático.


Nenhum órgão internacional determina onde uma geração começa ou termina. Nenhuma instituição possui autoridade formal para decidir como milhões de pessoas nascidas dentro de determinado período deverão ser chamadas. Até os intervalos de anos variam conforme o pesquisador ou a instituição adotada. O Pew Research Center utilizou durante muitos anos essas categorias em suas próprias pesquisas. Em 2023, passou a explicitar com mais cautela que as fronteiras geracionais não são cientificamente definidas, que seus limites são imprecisos e que o uso excessivo dessas classificações pode produzir estereótipos ou simplificações bastante ruins.


Os nomes surgiram de lugares muito menos organizados. Vieram da imprensa, da demografia, da fotografia, da literatura, da pesquisa social, do marketing. Em outras palavras, vieram de um monte de lugar e de lugar nenhum. Em alguns casos nasceram de fenômenos históricos bastante concretos. Em outros, foram construídos a partir da percepção sobre os jovens de determinada época. Alguns apareceram décadas antes de assumir o sentido que hoje associamos naturalmente a eles. Quando comecei a procurar a origem dessas palavras, essa desorganização me chamou mais atenção do que qualquer tentativa de estabelecer uma cronologia perfeita. Os nomes pareciam menos uma taxonomia construída de uma vez e mais uma coleção de expressões que sobreviveram a histórias diferentes.


Nomear também seleciona. Entre muitas características possíveis, uma delas aparece primeiro e passa a participar da maneira como aquele grupo será percebido. “Silenciosa”, “boom”, “X”, “Millennial”. Conforme a categoria circula e se estabiliza, fica fácil esquecer que alguém escolheu aquela lente em algum momento e que outras tantas poderiam ter sido escolhidas.


A maior parte dessas classificações nasceu dentro do contexto dos Estados Unidos ou de outros países de língua inglesa. Quando aplicamos os mesmos nomes e intervalos ao Brasil, muitas vezes tratamos como universais experiências produzidas por histórias bastante específicas. Uma pessoa nascida em 1950 nos Estados Unidos e outra nascida em 1950 no Brasil compartilharam parte do mesmo período histórico, mas encontraram economias, sistemas políticos, estruturas familiares, estágios de industrialização e possibilidades de consumo bastante diferentes. O raciocínio vale para alguém nascido em 1987 em São Paulo, Nova York, Tóquio ou numa pequena cidade no interior da Índia. O calendário aproxima. O mundo em volta pode ser completamente diferente.


Esse tipo de questão aparecia muito antes de começarmos a discutir Millennials ou Geração Z. Karl Mannheim publicou em 1928 seu conhecido ensaio sobre o problema das gerações. Uma das distinções propostas por ele continua bastante útil: pessoas nascidas em períodos próximos ocupam posições semelhantes dentro do processo histórico porque encontram determinados acontecimentos em fases parecidas da vida. Isso cria possibilidades de experiências compartilhadas, mas não uma personalidade coletiva. Classe social, cultura, formação, localidade e muitas outras condições modificam profundamente a maneira como um mesmo acontecimento será percebido. A geração pode ajudar a localizar alguém historicamente. Tratá-la como um tipo psicológico pronto, recheado de padrões de comportamento e traços de personalidade, exige um salto bem maior.


Boa parte da discussão contemporânea parece ignorar essa distância. Em alguns momentos, as descrições geracionais funcionam quase como signos de um zodíaco social, coisa de que as pessoas gostam bastante, diga-se de passagem. Millennials seriam assim. Geração Z pensa assado. Boomers têm determinado comportamento. Geração X seria independente por natureza. Alpha teria dificuldade de concentração. Um recurso usado para observar tendências coletivas termina aplicado diretamente aos indivíduos, a ponto de alguém poder se perguntar se realmente pertence à geração na qual foi colocado porque não reconhece em si as características atribuídas ao grupo.


A história da chamada Geração Silenciosa mostra bem essa dificuldade. Tornou-se comum situá-la entre 1928 e 1945, intervalo utilizado durante bastante tempo pelo Pew Research Center e por outras instituições. Estamos falando de pessoas cuja infância ou juventude foi marcada pela Grande Depressão, pela Segunda Guerra Mundial e pelas consequências desses acontecimentos. O nome, contudo, não apareceu originalmente para descrever exatamente esse recorte.


Em novembro de 1951, a TIME publicou uma longa reportagem chamada “The Younger Generation”. O texto tentava compreender os jovens dos Estados Unidos naquele momento e já no início reconhecia a dificuldade do próprio projeto: uma geração possui milhões de rostos e milhões de vozes, sem um começo ou fim perfeitamente definido. Ainda assim, a revista procurava aquilo que julgava caracterizar aquela juventude e chegou ao silêncio. Confesso que isso me soa estranho por algum motivo, principalmente quando lembro das gargalhadas do meu avô e do quanto ele era expressivo. Se ele era uma exceção à regra, a existência da exceção já ajuda a lembrar o tamanho da regra que estamos tentando criar.


A reportagem descrevia aqueles jovens como relativamente pouco interessados em discursos públicos, manifestos ou grandes movimentos de contestação. Trabalhavam, estudavam, planejavam a vida e pareciam menos inclinados às manifestações ostensivas associadas a gerações anteriores. A própria TIME registrou que aquele grupo vinha sendo chamado de “Silent Generation”, ou Geração Silenciosa. A formulação é importante porque nem mesmo a revista afirmava ter criado a expressão. A matéria funciona como um dos registros mais conhecidos de sua popularização, não como uma certidão de nascimento do termo.


A cronologia deixa a história ainda menos organizada. Os jovens analisados pela reportagem tinham aproximadamente entre 18 e 28 anos em 1951, o que corresponde principalmente aos nascidos entre o começo dos anos 1920 e o início dos anos 1930. A categoria que posteriormente se consolidou como Geração Silenciosa costuma chegar até 1945. Parte considerável das pessoas hoje incluídas nela sequer fazia parte da juventude descrita naquela reportagem. Não encontrei uma única decisão ou momento capaz de explicar sozinho esse deslocamento. Prefiro deixar a história assim a inventar uma precisão que ela não possui. O que conseguimos observar é uma consolidação posterior das fronteiras geracionais, repetidas por pesquisadores, instituições, imprensa e cultura popular até parecerem muito mais estáveis do que sua origem permite supor.


Estamos acostumados a pensar que primeiro existiu uma geração claramente delimitada e depois alguém descobriu o nome adequado para ela. Nesse caso, a ordem foi bem menos limpa. O nome circulou, ganhou força e terminou associado a um intervalo que também estava sendo construído ao longo do tempo.


A ideia de uma geração silenciosa ainda carrega uma ironia difícil de ignorar. Dentro do intervalo hoje associado à categoria encontramos Martin Luther King Jr., nascido em 1929; Gloria Steinem, em 1934; Bob Dylan e Joan Baez, em 1941; Muhammad Ali, em 1942. Andy Warhol nasceu em 1928. Se aplicarmos o mesmo recorte apenas cronologicamente ao Brasil, encontramos Fernando Henrique Cardoso, nascido em 1931; Glauber Rocha, em 1939; Gilberto Gil e Caetano Veloso, em 1942; Luiz Inácio Lula da Silva e Elis Regina, em 1945.


Estamos falando de pessoas ligadas a movimentos pelos direitos civis, feminismo, contracultura, mobilização sindical, Cinema Novo, Tropicália, disputas políticas e mudanças culturais profundas. “Silenciosa” pode fazer sentido quando entendida como o retrato produzido por determinados observadores sobre uma juventude em determinado momento. Fica mais difícil tratá-la como uma característica própria de milhões de indivíduos ao longo da vida.


O caso dos Baby Boomers parte de algo bem mais objetivo. Depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos registraram forte aumento no número de nascimentos. O U.S. Census Bureau situa o baby boom norte-americano entre 1946 e 1964. O número de nascimentos passou de aproximadamente 2,9 milhões em 1945 para 3,4 milhões em 1946 e continuou elevado nos anos seguintes, chegando a cerca de 4,3 milhões em 1957. A palavra “boom” já carregava em inglês a ideia de crescimento rápido ou explosão. Aplicada aos nascimentos, funcionava quase literalmente. Nesse caso, o comportamento das pessoas não criou o nome. O nascimento delas criou.


Depois que aqueles bebês cresceram, “boomer” começou a receber conteúdos culturais cada vez mais amplos. Parte daquela juventude esteve associada à contracultura, ao movimento hippie, às mudanças nos costumes, aos protestos contra a Guerra do Vietnã, ao rock e a várias transformações sociais dos anos 1960. Décadas mais tarde, a mesma palavra passou a circular na cultura digital como marcador de envelhecimento, conservadorismo ou dificuldade de compreender novas tecnologias.


A expressão “OK boomer”, popularizada principalmente a partir de 2019, mostra bem o deslocamento. Em muitos usos, “boomer” nem precisava indicar alguém cronologicamente pertencente à geração. Bastava apresentar aquilo que o interlocutor reconhecia como comportamento de boomer. Uma palavra criada a partir da natalidade ganhou, com o tempo, uma espécie de personalidade.


A Geração X possui uma trajetória ainda mais peculiar porque a expressão existia décadas antes de assumir o sentido atual. No fim dos anos 1940 e começo dos anos 1950, Robert Capa desenvolveu com fotógrafos da Magnum um projeto chamado “Generation X”, dedicado a jovens que cresciam no mundo do pós-guerra. O X funcionava bem como símbolo de uma juventude difícil de definir, carregando a mesma ideia de incógnita que conhecemos da matemática.


A expressão reapareceu em 1964 num livro dos jornalistas britânicos Jane Deverson e Charles Hamblett. Deverson havia entrevistado adolescentes para uma matéria encomendada pela Woman’s Own. Os jovens falavam sobre sexo antes do casamento, religião, autoridade e relações familiares de uma maneira que entrava em choque com a imagem esperada pela revista, e o material acabou transformado no livro “Generation X”.


A expressão ainda passaria pela música. Generation X foi o nome de uma banda punk britânica formada nos anos 1970 e que teve Billy Idol como vocalista. Em 1991, Douglas Coupland publicou “Generation X: Tales for an Accelerated Culture”, romance que teve um papel decisivo na popularização contemporânea do termo. A própria genealogia do título de Coupland não é completamente limpa. Em momentos diferentes, ele relacionou o nome tanto à banda de Billy Idol quanto à “Category X” apresentada por Paul Fussell em “Class: A Guide Through the American Status System”, publicado em 1983. Fussell não estava descrevendo uma geração, mas pessoas que tentavam escapar das convenções tradicionais de status, consumo e posição social.


Não precisamos resolver completamente essa genealogia para perceber o percurso. Uma expressão hoje tratada como nome geracional perfeitamente estabelecido atravessou fotografia, jornalismo, pesquisa sobre juventude, música, crítica social e literatura antes de chegar à função que conhecemos.


Depois disso surgiu a Geração Y. Se existia X, o próximo grupo podia simplesmente receber a letra seguinte. Por algum tempo o nome foi utilizado com bastante frequência. No Brasil, “Geração Y” tornou-se particularmente comum em textos empresariais, revistas e treinamentos corporativos voltados à suposta necessidade de facilitar a comunicação entre gerações no ambiente de trabalho. Eu mesmo tive a oportunidade de participar de alguns treinamentos lastimáveis desse tipo.


Outro nome acabaria se impondo: Millennials, grupo do qual eu mesmo faço parte. William Strauss e Neil Howe tiveram papel importante na popularização da expressão. Durante o trabalho que resultaria em “Generations: The History of America’s Future, 1584 to 2069”, publicado em 1991, os autores buscavam uma denominação para o grupo que chegaria à vida adulta perto da passagem para o ano 2000. Howe relatou posteriormente que a associação surgiu quando perceberam que os primeiros integrantes daquela geração formariam a turma de ensino médio do ano 2000. “Millennials” parecia capturar aquela posição simbólica.


Até então, os nomes já vinham de lógicas muito diferentes: uma leitura de comportamento, uma curva demográfica, uma incógnita e agora uma posição diante da passagem do tempo.


Na transição dos anos 1980 para os 1990, o novo milênio carregava um peso simbólico enorme. Computadores pessoais começavam a mudar a relação cotidiana com a tecnologia. A globalização avançava. A internet ainda não fazia parte da vida doméstica da maioria das pessoas, embora estivesse se expandindo para além dos ambientes acadêmicos, governamentais e especializados. O ano 2000 parecia representar uma fronteira. Batizar aquelas crianças de Millennials significava vinculá-las a essa passagem antes mesmo que soubessem o que o novo milênio lhes entregaria. Realmente, nós não sabíamos.


Strauss e Howe projetaram características relativamente otimistas sobre aquele grupo. Décadas depois, a realidade econômica complicou bastante algumas dessas expectativas. Muitos Millennials chegaram à vida adulta perto da crise financeira global de 2007 a 2009. Em 2018, pesquisadores do Federal Reserve compararam Millennials com gerações anteriores em idades semelhantes e encontraram rendimentos menores, menos ativos e patrimônio mais baixo. Quando idade, renda e outros fatores socioeconômicos eram considerados, as diferenças nas preferências de consumo também se mostravam bem menores do que parte do discurso popular sugeria.


Essa sempre foi uma reflexão que tive com amigos e amigas. Quantas vezes não conversamos sobre o fato de nossos pais, com a nossa idade, já terem casa própria, mais de um carro ou uma família estruturada de outra forma? Falávamos coisas como: “Na época deles, por algum motivo, parecia mais fácil. Não existiam tantas coisas como existem hoje. Parecia existir mais espaço a ser desbravado”. Lembro dessas conversas no alto dos meus 28 anos. Hoje algumas coisas parecem mais claras.


Durante anos circularam explicações segundo as quais Millennials não compravam imóveis, demoravam para formar patrimônio ou adiavam determinados marcos da vida adulta porque preferiam experiências, viagens, cafés caros, eletrônicos ou algum outro hábito convenientemente convertido em defeito moral. Quando renda, patrimônio, custo da moradia, crédito e momento econômico entram na análise, parte da diferença atribuída à personalidade perde força.


Esse raciocínio vale muito além dos Millennials. Uma pessoa mais velha pode dizer que conseguiu comprar uma casa trabalhando e economizando durante a juventude, e sua experiência pode ser perfeitamente verdadeira. Mercado imobiliário, salários, acesso ao crédito, custo da educação, estrutura familiar, direitos trabalhistas, taxas de juros, região e preço relativo dos bens faziam parte das condições em que aquela experiência aconteceu. A mesma decisão tomada cinquenta anos depois ocorre dentro de outro sistema e pode produzir outro resultado.


A estrutura também não explica sozinha aquilo que acontece com cada indivíduo. Escolhas pessoais importam, assim como origem familiar, raça, gênero, região, oportunidades e uma quantidade enorme de acontecimentos impossíveis de reduzir a uma única variável. Uma experiência pessoal pode ensinar bastante sobre uma vida. Continua não sendo uma lei histórica. A prosperidade frequentemente associada aos Baby Boomers também foi distribuída de maneira muito desigual entre pessoas de classes, raças, gêneros e regiões diferentes. Toda vez que reunimos milhões de pessoas numa categoria, alguma parte da diversidade interna desaparece.


A origem da Geração Z é quase decepcionante de tão simples. Depois de X apareceu Y. Depois de Y veio Z. Durante algum tempo nem estava claro que “Geração Z” venceria a disputa. Outros nomes circularam, entre eles “iGeneration”, “Homelanders” e “Post-Millennials”. O próprio Pew Research Center utilizou “post-Millennials” provisoriamente enquanto aguardava maior consolidação do vocabulário. Em 2019, explicou que passaria a adotar “Generation Z” porque o termo havia se tornado dominante na cultura popular, no jornalismo e nas buscas realizadas pelas pessoas. O centro reconhecia que não existia um processo científico capaz de determinar o momento exato em que um nome geracional se tornava correto. O termo ganhou força suficiente para se estabilizar.


A Geração Z não recebeu seu nome porque pesquisadores descobriram uma característica essencial compartilhada por todos os seus integrantes. O nome venceu uma disputa cultural. Depois da consolidação, surgem pesquisas sobre comportamento, consumo, saúde mental, política, trabalho e relacionamentos. A imprensa converte tendências em perfis, o marketing encontra segmentos e as redes sociais pegam parte dessas descrições e as devolvem como identidade. Em algum momento, pessoas nascidas dentro daquele intervalo começam a utilizar o próprio nome da geração para explicar a si mesmas. A classificação criada para observar o grupo passa a participar também da forma como seus integrantes se percebem.


Quando o alfabeto chegou ao Z surgiu uma questão quase prática: qual seria a próxima letra? Foi nesse contexto que Mark McCrindle adotou o nome Geração Alpha para o grupo que começava a nascer por volta de 2010. Segundo o relato dele, sua equipe pesquisou diferentes denominações antes de optar pelo primeiro caractere do alfabeto grego. “Generation A” aparecia entre as possibilidades, mas Alpha permitia iniciar outra sequência sem simplesmente voltar ao começo do alfabeto latino. A escolha também seguia uma tradição de recorrer ao alfabeto grego quando uma sequência anterior chega ao fim.


Chegamos a um momento em que esperamos que uma nova geração tenha um nome. Quando um grupo suficientemente jovem aparece, pesquisadores procuram tendências, consultorias produzem relatórios, empresas tentam antecipar como ele consumirá, departamentos de recursos humanos querem saber como trabalhará, escolas discutem como aprenderá e a imprensa procura aquilo que o diferenciaria dos anteriores. Redes sociais aceleram o processo. Em algum momento, uma narrativa ganha força suficiente para começar a parecer uma característica encontrada naturalmente dentro das pessoas.


As categorias continuam úteis para produzir conhecimento. Estatística, Sociologia, Economia, Demografia, Psicologia Social e Ciência Política trabalham constantemente com agrupamentos porque seria impossível estudar populações tratando cada indivíduo como uma unidade completamente isolada. Todo agrupamento, porém, elimina algum nível de detalhe.


Pensa num mapa. Ele serve justamente porque não reproduz tudo o que existe no território. Seleciona ruas, limites, rios, elevações ou qualquer informação necessária para determinada finalidade. Um mapa que tentasse representar absolutamente tudo perderia boa parte da utilidade. Uma categoria geracional funciona de maneira parecida: reduz milhões de trajetórias a um recorte temporal para tornar alguns padrões visíveis. Isso pode ser muito útil. Procurar dentro dos indivíduos aquilo que só fazia sentido na escala usada para observar o grupo distorce a função da própria categoria.


Dizer que alguém nasceu em 1955 informa alguma coisa sobre os acontecimentos históricos encontrados por essa pessoa em diferentes fases da vida. O mesmo vale para quem nasceu em 1990 ou 2010. Guerra Fria, televisão, internet, smartphones, crises financeiras, pandemia, redes sociais e inteligência artificial chegaram para essas pessoas em idades diferentes. Uma tecnologia conhecida aos cinco anos ocupa outro lugar na vida de alguém quando comparada à mesma tecnologia descoberta aos quarenta. Idade e geração, contudo, não são a mesma coisa.


Esse é um dos maiores desafios para interpretar pesquisas geracionais. Quando encontramos diferenças entre pessoas de vinte e sessenta anos, precisamos descobrir o que estamos realmente observando. A pesquisa social costuma separar três dimensões nesse tipo de análise. O efeito de idade corresponde às mudanças relacionadas ao próprio ciclo de vida. O efeito de período diz respeito a acontecimentos que atingem vários grupos num mesmo momento histórico. O efeito de coorte procura aquilo que permanece associado a pessoas nascidas em períodos próximos porque determinados acontecimentos as encontraram em fases semelhantes da formação.


Separar essas dimensões é difícil pra caramba, e essa dificuldade está entre as razões pelas quais o Pew Research Center decidiu rever sua abordagem sobre gerações em 2023. Comparar jovens de hoje com idosos de hoje não basta para descobrir um efeito geracional. Em muitas situações é necessário comparar pessoas em fases semelhantes da vida, utilizar séries históricas mais longas e considerar outras características demográficas e sociais. Uma diferença inicialmente atribuída à Geração Z pode diminuir ou desaparecer quando idade, educação, raça, renda ou período histórico entram na análise.


O chamado conflito entre gerações também ganha outra aparência quando pensamos dessa maneira. É fácil tomar as condições da própria formação como medida de normalidade. Aquilo que aprendemos durante a juventude pode parecer menos uma adaptação ao mundo que encontramos e mais simplesmente a maneira correta de fazer as coisas. Quando as condições mudam, quem vem depois parece desorganizado, preguiçoso, frágil, impaciente ou estranho. Do outro lado, quem cresceu dentro das condições novas pode interpretar comportamentos anteriores como ultrapassados, rígidos ou incapazes de acompanhar as mudanças. Cada grupo olha para o outro a partir de experiências formadas em cenários diferentes.


A tecnologia torna isso particularmente visível. Pessoas hoje chamadas de Geração Silenciosa puderam chegar à idade adulta antes que a televisão se tornasse uma presença cotidiana em milhões de casas. Boomers acompanharam sua consolidação. A Geração X atravessou uma infância predominantemente analógica e uma vida adulta progressivamente digital. Muitos Millennials conheceram computadores e internet durante a infância ou adolescência. Grande parte da Geração Z não guarda uma memória significativa de um mundo sem internet. Crianças incluídas na chamada Geração Alpha encontram telas sensíveis ao toque, streaming, algoritmos e inteligência artificial nos primeiros anos de vida.


Essas diferenças importam, mas não informam sozinhas o que cada pessoa pensa sobre trabalho, família, política, sexualidade, religião ou praticamente qualquer outro aspecto da vida social. A experiência histórica participa da formação das pessoas. Não as programa.


Quando uma categoria se torna popular, ela também passa a orientar aquilo que procuramos. O jovem que corresponde ao estereótipo da Geração Z parece representativo. O Millennial que confirma uma característica atribuída aos Millennials vira exemplo. O idoso com dificuldade diante de uma tecnologia nova confirma a caricatura do boomer. O integrante da Geração X que se apresenta como independente encaixa perfeitamente no modelo. Pessoas que não combinam com a descrição oferecem menos satisfação narrativa e acabam recebendo menos atenção.


Depois de algum tempo, podemos esquecer que, em vários casos, o rótulo já circulava antes de muitas das características utilizadas posteriormente para justificá-lo. A escolha do nome registra também alguma coisa sobre quem estava olhando. “Silenciosa” selecionou uma impressão sobre comportamento. “Baby Boomer” registrou um fenômeno demográfico. “X” carregou uma ideia de incógnita por trajetórias diferentes. “Millennial” colocou um grupo diante de uma passagem temporal. “Z” ganhou por circulação cultural. “Alpha” foi escolhido deliberadamente para iniciar outra sequência.


Nenhuma dessas palavras consegue conter todas as pessoas que reuniu, nem precisa. As categorias permitem localizar grupos no tempo, aproximar experiências e observar mudanças na relação com tecnologia, trabalho, política, família, consumo ou outras dimensões da vida social. Esperar que uma ferramenta criada para encontrar padrões forneça também a personalidade de quem foi colocado dentro dela é pedir uma precisão que ela nunca teve.


Volto então à sequência que parecia tão organizada no começo: Geração Silenciosa, Baby Boomers, Geração X, Millennials, Geração Z, Alpha. Depois de percorrer a história desses nomes, ela me parece menos uma tabela destinada a dividir pessoas e mais um registro das sucessivas tentativas de uma época de compreender quem veio antes, depois ou estava surgindo diante dela. Os nomes permaneceram, mudaram de sentido, ganharam novos intervalos e acumularam características que nem sempre estavam presentes quando apareceram.


As palavras ficaram.


As pessoas continuam sendo bem maiores que elas.


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