# De volta ao silêncio

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Publicado: 2026-08-29 04:25:51
Atualizado: 2026-08-29 04:33:23
Autor(es): Luis Ricardo Teiga Ramalho
Categorias: Reflexão > Memórias
Tags: reflexão, reflexões, memória, memórias, tecnologia, internet, ensaio, culturadigital, cultura, psicologia, filosofia, sociologia

Neste primeiro texto, volto à internet da adolescência, aos fotologs, à tecnologia e às formas de exposição que mudaram com o tempo. A partir de lembranças, reflexões e algumas digressões, tento explicar por que decidi criar este espaço e o que pretendo deixar por aqui: ideias, interesses, memórias, contradições e fragmentos de uma vida em movimento.

## Resumo factual
Neste primeiro texto, volto à internet da adolescência, aos fotologs, à tecnologia e às formas de exposição que mudaram com o tempo. A partir de lembranças, reflexões e algumas digressões, tento explicar por que decidi criar este espaço e o que pretendo deixar por aqui: ideias, interesses, memórias, contradições e fragmentos de uma vida em movimento..

## Pontos principais
• Sempre me pareceu charmosa a ideia de um blog.
• De fato, talvez não tivesse como ser diferente.
• Como alguém que nasceu em 87, vivi parte da minha adolescência presenciando o deslumbre de toda uma geração com a internet, da nostalgia dos sons analógicos da internet discada à…
• Nesse momento, a internet era um território menos selvagem, embora estivesse longe de ser ingênuo.
• A própria limitação tecnológica permitia que as interações fossem menos expositivas.

## Texto
Sempre me pareceu charmosa a ideia de um blog. De fato, talvez não tivesse como ser diferente. Como alguém que nasceu em 87, vivi parte da minha adolescência presenciando o deslumbre de toda uma geração com a internet, da nostalgia dos sons analógicos da internet discada à internet de banda larga, que, na minha época, em Ourinhos, uma cidade do interior do Estado de São Paulo, era quase o mesmo que falar “Speed”, nome do serviço de banda larga da Telefônica que poucos podiam pagar. Nesse momento, a internet era um território menos selvagem, embora estivesse longe de ser ingênuo. A própria limitação tecnológica permitia que as interações fossem menos expositivas. A exposição já existia, claro, só que não era como hoje, em que você está em uma viagem ou em um restaurante de que gosta, tira fotos, grava vídeos e, sem muita dificuldade, posta tudo em suas redes sociais. Pronto, está lá, com minutos de diferença, sem contar a possibilidade de fazer lives, “ao vivo”, em tempo “real”. Inclusive, raramente direi algo contra a tecnologia por aqui. Isso se deve não somente ao fato de eu ter formação e carreira na área, mas também à consciência de que a tecnologia é constituída de criador e usuário. Ambos se retroalimentam, e a tecnologia responde a demandas e desejos por meio de suas funções. Poderíamos entrar aqui na discussão sobre o que grandes empresas fazem com isso, mas, sinceramente, acho esse assunto chato. Bem... não diria necessariamente chato, mas saturado, circular. Certas questões são bem mais complexas do que parecem, sem contar que é difícil me colocar na posição de um crítico da tecnologia, uma vez que sou um usuário, como dizem, “hardcore”. Tratando-se de hardware, como dizia o professor da minha faculdade, aquilo que você chuta, computadores de boa configuração, periféricos, celulares, tablets, videogames, assistentes e televisões de alta tecnologia sempre estiveram presentes na minha vida. Com o tempo, deixaram de ser apenas ferramentas ou objetos de interesse e passaram a fazer parte daquilo de que gosto, da forma como vivo e, em alguma medida, de quem eu sou. Também me deram acesso a experiências, conhecimentos e possibilidades que, em outros tempos, seriam muito mais difíceis de alcançar.Nem todo mundo para para pensar no percurso que alguém no século XIII teria que percorrer para ter acesso ao que nós temos em uma hora.Por outro lado, também existem os softwares. Como dizia o mesmo professor, aquilo que você xinga. Ferramentas de escrita, edição de vídeo e imagem, comunicação, gestão, gravação de aulas e, mais recentemente, inteligências artificiais. Trabalhar, usar e viver em meio a tudo isso foi mais do que suficiente para me mostrar a revolução que a tecnologia produz. Ela facilita trabalhos operacionais e árduos, otimiza processos, amplia acessos e faz uma quantidade enorme de outras coisas, boas e ruins, porque dificilmente alguma coisa é neutra e a tecnologia certamente não escapa disso.Bem, mas me estendi por aqui. Estávamos onde? Na internet menos selvagem, isso!Nessa época, algo entre 98 e 2004, as páginas eram mais passivas, documentais e menos interativas. Blogs e fotologs eram comuns, hoje plenamente substituíveis pelo Instagram, Facebook e TikTok, uma vez que essas plataformas oferecem um formato ao qual as pessoas estão mais habituadas: imagens, vídeos, conteúdo rápido, pouco texto. É como as coisas caminharam. É como elas são atualmente, principalmente se falarmos do mainstream.Contudo, sempre achei os blogs charmosos. Um espaço reservado para que as pessoas compartilhem, por meio da escrita, seus pensamentos, suas ideias, suas pesquisas ou até mesmo fragmentos da própria vida, quase como um diário pessoal.Importante salientar que reconheço todos esses gestos como saudáveis. A escrita é uma forma de arte, uma expressão. Pode, sim, se limitar a um relato, mas também pode adentrar o filosofar, a reflexão, o saber. Palavras e textos conectam pessoas, dão forma a pensamentos, e aqui falo da escrita como instrumento de expressão que, invariavelmente, carrega consigo alguma dose de exposição. O texto nunca sabe quais olhos encontrará. Às vezes, nem mesmo os olhos sabem exatamente como o estão vendo. Esse é um assunto, talvez, para outro post. Entre 2002 e 2004, tive um blog com um grupo de amigos. Na verdade, era mais próximo de um fotolog, que nada mais era do que um blog centrado em fotos. Lembro nitidamente do nome e faço questão de não revelá-lo, pelo simples fato de ele não fazer sentido algum fora daquele grupo de amigos e, convenhamos, ser um tanto vergonhoso. Coisa de adolescente daquela época, embora parte daquele adolescente ainda resida em mim até hoje.O legal daquele fotolog não era somente o fato de estar associado a um grupo no meio digital. A questão do pertencimento é preponderante nessa fase da vida, algo que eu já intuía naquela época, mas que só fui compreender melhor anos depois, ao estudar Erik Erikson e seus estágios psicossociais do desenvolvimento, marcados por crises e conflitos próprios de cada fase. O que mais me chamava a atenção naquele blog, porém, era enxergá-lo como um registro histórico daquele grupo, daquelas pessoas e daquela fase da minha vida. Lembro bem de como foi aquele fotolog. Começou com todos nós. Em alguns períodos, uns apareciam mais que os outros. Em outros, alguns sumiam por um tempo e depois voltavam, enquanto outros simplesmente nunca mais apareceram.Até que, em algum momento, existiu um último post. A vida começou a acontecer em outra fase, por outros caminhos, e aquela página que usávamos para registrar o grupo na internet acabou deixando de existir. Acabou. O que ficou foi o prazer daqueles dias, daquela fase.A memória permaneceu. E chegamos a 2026. Quem escreve agora é um bicho diferente, um animal transformado não apenas pela natureza, mas também pelas circunstâncias da vida. Circunstâncias que, neste momento, me parecem férteis e promissoras.Sou alguém presente nas redes sociais, ainda que de forma tímida. No ano passado, iniciei uma nova conta no Instagram, @ricardo.ramalho_. Lá compartilho minhas leituras, meu percurso de estudos e pesquisas, livros e outras coisas que gosto de consumir, algumas ideias desenvolvidas em posts em carrossel, além de paisagens de diferentes lugares de São Paulo.Um ponto importante: as pessoas podem me dar diferentes argumentos para não gostar de São Paulo, mas eu amo essa cidade do mais profundo do meu coração. E algo me diz que esse amor será permanente. Esse movimento de criar o Instagram, assim como outras iniciativas nas quais pretendo me envolver no futuro, nasceu de uma vontade que, aos poucos, se transformou em planejamento. Reconheço-me como alguém organizado, que procura se orientar no curto, no médio e, principalmente, no longo prazo, dentro do que é possível e do que as circunstâncias permitem.O blog também faz parte desse planejamento.E o que é ele? Posso dizer que é um espaço mais silencioso, menos barulhento, e que desperta em mim um estado de calma. Isso se deve principalmente ao fato de a escrita estar intimamente ligada à minha centelha, à minha forma de ser, de ler o mundo e de observar as personagens que o habitam. Outro fato está relacionado à palavra “monitoramento”. Pensei até em usar a palavra “vigilância”, mas acho ela muito forte. Pensem comigo: quando produzimos um conteúdo, quando expomos algo, claramente não existe somente a intenção do registro. Existe também a do reconhecimento. Por mais que me digam o contrário, creio que isso seja incontornável. Somos seres sociais e, olha, nem sempre isso me deixa feliz... rs.Saber o quanto estamos gerando de impacto no outro, ou o quanto da atenção dele chega até nós, é algo que, ao mesmo tempo, conforta e preocupa. Mesmo consciente disso, eu também não sou alguém que escapa dessa dinâmica. Contudo, neste blog será diferente. Likes não fazem parte daqui. Isso simplesmente não existe por aqui. Rostos também não, por aqui serão caracteres. No máximo, algumas imagens, vídeos com conteúdos que eu queira indicar ou comentar.A música também terá seu espaço. Tenho pensado em colocar uma ao final de cada post. Pode ser aquela que eu estava ouvindo enquanto escrevia, alguma relacionada ao assunto ou simplesmente uma música de que gosto. É um espaço para você, que não me conhece ou que já me conhece, enxergar outro ângulo de quem eu sou: parte de como penso, do que gosto, do que não gosto, dos assuntos que me interessam, das áreas e dos temas com os quais trabalho. No entanto, essas coisas não vão aparecer diretamente por aqui. Não pretendo criar nenhum tipo de ficha, ao menos não agora. Tudo estará diluído, em fragmentos, como o próprio nome do blog sugere. Textos, recortes, ideias, interesses, contradições, coisas que permanecerão e outras que talvez mudem com o tempo. Talvez seja justamente isso que reste quando tentamos registrar uma pessoa: fragmentos.O que posso prometer é que vou me esforçar para chegar o mais perto possível daquilo que significa ser uma pessoa.