# A Poética do Devaneio e a realidade da imaginação

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Publicado: 2026-09-21T02:03:00.000Z
Atualizado: 2026-09-21T02:05:04.000Z
Autor(es): Luis Ricardo Teiga Ramalho
Categorias: Filosofia > Imaginação
Pensadores relacionados: Gaston Bachelard
Tags: Imaginação, Devaneio, A Poética do Devaneio, Memória, Infância, Imagem poética, Consciência, Experiência humana, Realidade, Interioridade, Fenomenologia, Criação, Subjetividade, Lembrança, psicologia complexa, psicologia analítica, arquétipo, arquétipo motor

Partindo de Bachelard, o texto pensa a imaginação como parte da experiência humana: aquilo que recordamos, antecipamos e inventamos não substitui os fatos, mas participa da forma como vivemos, sentimos e damos sentido ao mundo.

## Resumo factual
Partindo de Bachelard, o texto pensa a imaginação como parte da experiência humana: aquilo que recordamos, antecipamos e inventamos não substitui os fatos, mas participa da forma como vivemos, sentimos e damos sentido ao mundo..

## Pontos principais
Seguindo o critério editorial de registrar apenas ideias realmente centrais ao texto, eu usaria estas:
A imaginação pode produzir experiências reais sem transformar aquilo que foi imaginado em acontecimento objetivo.
Para Gaston Bachelard, o devaneio mantém uma participação consciente que o diferencia do sonho noturno.

A imaginação criadora não se limita a reproduzir mentalmente o que já existe, podendo acrescentar novas relações e sentidos à experiência.

Memória e imaginação interferem uma na outra, especialmente quando reconstruímos lembranças da infância.
Recordar o passado não equivale a recuperá-lo intacto, pois lembranças podem ser reorganizadas, ampliadas, idealizadas ou preenchidas ao longo do tempo.
A imaginação também atua sobre o futuro ao antecipar conversas, possibilidades, perdas, escolhas e situações que ainda não aconteceram.
Imagens poéticas, literatura e linguagem podem produzir experiências e modificar a maneira como percebemos algo, em vez de apenas representar experiências anteriores.
A mesma capacidade imaginativa que amplia a experiência também pode deformar lembranças, alimentar expectativas falsas e atribuir realidade subjetiva a cenários inexistentes.

## Texto
Quando tento voltar mentalmente a algum lugar da infância, a primeira coisa que aparece raramente é uma planta baixa. Não penso na medida exata do quarto, na distância entre a porta e a janela ou na posição precisa dos móveis. O lugar volta à minha mente por outra via. Aparece um resquício de memória, às vezes um lapso, uma sensação de tamanho, um corredor que parecia comprido, algum ruído, o modo como determinado canto da casa fazia sentir segurança ou medo. Isso me faz lembrar de um quadro que ficava na sala de casa. Eu não gostava dele. Sabe aquele tipo de quadro em que a pessoa parece acompanhar você com os olhos? Medo!Quando encontro uma fotografia antiga, pode surgir uma pequena surpresa: o espaço era menor do que eu lembrava, a disposição não corresponde exatamente à imagem que permaneceu, certas cores parecem erradas. A fotografia tem a vantagem incômoda de não colaborar com a memória. Quando somos crianças, algumas coisas parecem maiores do que de fato são, só que isso não fica restrito à infância. Lembro de quando cheguei em São Paulo e fui a um complexo empresarial que achei gigantesco, incrível. Hoje o mesmo lugar me parece normal. Não foi o prédio que encolheu.A fotografia registra uma configuração do espaço em determinado instante. A lembrança conserva outra coisa, misturada ao tempo, à pessoa que eu era, às experiências posteriores e à própria capacidade de lembrar. Voltar a um lugar depois de muitos anos produz efeito semelhante. O espaço físico pode continuar quase intacto enquanto aquele que carregamos conosco sofreu reformas consideráveis. Algumas reformas simplesmente foram feitas sem autorização.Costumamos reservar a palavra realidade para o primeiro caso. A sala tinha tantos metros, a janela ficava naquele lado, o objeto estava ali, determinada conversa aconteceu às quatro da tarde. Quando saímos desse terreno, a linguagem começa a ficar desconfiada. Imaginamos, fantasiamos, sonhamos, inventamos. Dependendo do contexto, essas palavras já carregam uma espécie de aviso. “Isso é coisa da sua imaginação” costuma funcionar como uma maneira rápida de diminuir a importância de uma experiência. “Volta para a realidade” faz algo parecido. Crianças podem passar horas inventando mundos e personagens porque aceitamos que isso faça parte da infância. Um adulto olhando pela janela durante quinze minutos corre o risco de parecer desocupado ou meio desorientado.A vida adulta não abandona a imaginação, claro. Seria difícil até organizar um dia comum sem ela. Na nossa mente antecipamos conversas, simulamos consequências, montamos cenas futuras, pensamos no que alguém responderia, reconstruímos episódios antigos, lemos histórias, ouvimos músicas e atribuímos imagens a elas, tememos acontecimentos que nunca ocorreram e desejamos situações que ainda não existem. Mesmo assim, mantemos uma hierarquia curiosa. De um lado ficaria a experiência séria, objetiva, prática. Do outro, uma atividade mental secundária, às vezes agradável, às vezes infantil, que precisa saber a hora de sair de cena. Acho isso uma pena. Criatividade e imaginação estão entre as capacidades humanas que mais me fascinam.Foi pensando nessa espécie de rebaixamento da imaginação que, anos atrás, cheguei a Gaston Bachelard. Filósofo francês do século XX, Bachelard construiu uma obra bastante peculiar. Parte importante de sua trajetória esteve ligada à epistemologia e à filosofia da ciência, mas ele também dedicou vários livros à imaginação, à poesia e às imagens produzidas por elementos como água, fogo, ar e terra. Em A Poética do Devaneio, publicado em 1960, ele entra justamente nesse segundo território e desconfia da posição secundária que costumamos conceder à imaginação.Logo na introdução, ao contrapor seu método fenomenológico ao que chama, com alguma ironia, de “bons métodos do psicólogo”, Bachelard se refere a uma psicologia preocupada em observar, descrever, medir níveis e classificar tipos. Não está recusando toda a psicologia nem propondo uma teoria concorrente da mente. Sua crítica se dirige principalmente ao que esse modo de investigação deixa escapar quando transforma a imaginação apenas em objeto observado de fora. É nesse contexto que surge uma provocação interessante: conseguimos observar a imaginação nas crianças sem examinar como ela “morre na generalidade dos homens”. O livro não transforma isso numa tese sociológica sobre a vida adulta. Seu caminho, ainda bem, vai por outro lado. Bachelard quer se aproximar da consciência que imagina, especialmente quando ela se entrega ao devaneio poético, à linguagem, às lembranças da infância e às imagens capazes de abrir um mundo para quem as recebe.A escolha do devaneio importa bastante. Bachelard não o trata simplesmente como um sonho incompleto ocorrido durante o dia. O sonho noturno, para ele, pode nos carregar a ponto de o sujeito perder parte da consciência de estar sonhando. O devaneio conserva uma participação consciente maior. Podemos estar diante de uma janela, caminhar sem destino urgente, permanecer sentados depois que uma música acaba ou simplesmente deixar a atenção prática afrouxar um pouco. Continuamos ali. Sabemos, em alguma medida, que estamos imaginando. A consciência não desapareceu, está exercendo uma atividade diferente.Essa separação entre sonho e devaneio é forte no livro, mais forte do que eu levaria para qualquer situação da vida. O próprio Bachelard também seleciona um tipo específico de devaneio. Interessa-lhe principalmente aquele que ganha consistência, produz imagens, cria linguagem e encontra certa felicidade na própria atividade de sonhar acordado. Devaneios de raiva, vingança, medo ou destruição ficam muitas vezes fora de seu campo. É uma escolha metodológica importante porque impede que A Poética do Devaneio seja tratada como uma teoria geral de tudo o que a imaginação humana pode fazer. O livro estabelece uma espécie de perímetro e trabalha dentro dele. Ainda assim, a escolha abre uma questão maior. Se alguém está consciente enquanto imagina, participa daquilo que imagina e pode ser modificado por essa experiência, por que deveríamos tratar tudo isso como simples ausência de realidade?A resposta depende do que chamamos de real. Se imagino hoje uma conversa que nunca aconteceu, a conversa continua sem ter acontecido. Nenhuma elaboração filosófica muda esse fato. A outra pessoa não disse aquelas palavras, eu não respondi, não existiu naquele momento uma troca entre dois indivíduos no mundo compartilhado. Só que alguma coisa efetivamente ocorreu: passei vinte minutos construindo a conversa, senti irritação diante de uma resposta que eu mesmo inventei, encontrei uma frase que gostaria de ter dito, mudei a maneira de interpretar um episódio ou decidi fazer algo amanhã. O conteúdo da cena não pertence à história objetiva dos acontecimentos. A experiência de imaginá-la pertence à minha história.É legal pra caramba pensar nessa fronteira porque ela permite levar a imaginação a sério sem transformar fantasia em fato. Bachelard preserva essa separação ao falar numa “função do irreal”. Em outro momento, ele chega a reconhecer no devaneio a realidade de um estado efetivamente vivido, mesmo quando suas ilusões podem ser denunciadas depois. A formulação me interessa porque não tenta salvar a imaginação concedendo a ela um certificado de realidade objetiva. O irreal continua sendo irreal. Sua função, porém, pode ser perfeitamente real na vida de alguém.Uma expectativa oferece um exemplo simples. Podemos passar semanas esperando uma compra que fizemos pela internet. Antes de o produto chegar, já imaginamos sua chegada, o que vamos fazer com ele, onde será colocado ou como será usado. Aquela coisa que ainda nem está conosco ocupou tempo, produziu imagens, orientou algum planejamento, criou ansiedade, organizou conversas e interferiu no humor. Parte do que vivemos aconteceu antes do acontecimento. Se o pacote não chega na data acordada, toda aquela experiência anterior não desaparece retroativamente. O futuro imaginado não se realizou como esperávamos, só que participou do presente enquanto possibilidade.O mesmo vale para situações menos agradáveis. Uma pessoa pode sofrer durante meses por uma demissão que nunca ocorrerá. Pode sentir ciúme de uma cena inexistente, ensaiar uma discussão tantas vezes que chega a ela já ressentida ou evitar uma escolha por causa de um fracasso que só aconteceu mentalmente. A imaginação não precisa acertar para produzir efeitos. Esse detalhe já complica qualquer celebração muito confortável de sua importância.Bachelard se interessa principalmente por outra direção. Para ele, a imaginação é criadora. Uma imagem não vale apenas porque reproduz mentalmente alguma coisa que já existia. Na abertura do livro, a imagem poética aparece como uma origem, uma novidade capaz de colocar a consciência em movimento. Ao recorrer a uma formulação de Percy Bysshe Shelley, poeta romântico inglês, Bachelard sugere que a imaginação participa até daquilo que vemos. Ver imaginativamente não equivale a registrar o objeto com fidelidade. Alguma coisa é acrescentada à percepção, e nem sei se “conteúdo” é a melhor palavra para isso.Tenta imaginar uma árvore vista todos os dias pela mesma janela. Podemos descrevê-la pela espécie, altura aproximada, posição, cor das folhas, período de floração. Podemos fotografá-la. Também podemos vê-la numa tarde específica e perceber nela uma solidão que obviamente não é uma propriedade botânica da árvore. Em outro momento, a mesma árvore pode aparecer como abrigo, permanência, ameaça, infância, passagem do tempo. Nenhuma dessas imagens substitui o conhecimento do objeto. Elas pertencem a outra relação com ele. Seria estranho pedir a um botânico que incluísse a melancolia na descrição da espécie. Seria igualmente estranho concluir que a melancolia experimentada diante dela não ocorreu porque não estava nos galhos. Entende a diferença?É nesse espaço que a imagem poética ganha força. Para Bachelard, ela não chega necessariamente depois de uma experiência já pronta para apenas representá-la em palavras. Em certas ocasiões, a própria imagem produz uma experiência que antes não estava organizada daquela forma. Quem lê um poema pode reconhecer alguma coisa que nunca havia pensado, sentir uma intimidade com um lugar que nunca visitou ou receber uma imagem tão precisa que ela passa a participar de seu próprio repertório interior.Isso acontece também fora da poesia em sentido estrito. É meio louco pensar nisso, pois um romance pode nos fazer esperar por pessoas inexistentes. Uma música pode criar uma paisagem sem que nenhuma paisagem tenha sido apresentada. Uma frase lida muitos anos antes continua retornando em situações completamente diferentes daquela em que foi encontrada. Nenhuma dessas experiências precisa ser confundida com os acontecimentos narrados. A relação que estabelecemos com elas, contudo, pertence ao que efetivamente vivemos.Bachelard também pensa o livro como alguma coisa situada entre o virtual e o real. Quando chega nesse ponto, a coisa começa a ganhar mais camadas, mas ele evita duas facilidades. A primeira seria tratar a ficção como alguma coisa sem consequência por ser inventada. A segunda seria dizer que ficção e realidade são a mesma coisa. Definitivamente não são. Uma personagem não passa a existir biologicamente porque choramos por ela. O choro existe. A espera existe. A lembrança daquela personagem pode durar vinte anos. Às vezes lembramos melhor de uma casa inventada por um escritor do que de uma casa em que realmente estivemos.A memória torna tudo isso ainda mais complicado. Em A Poética do Devaneio, Bachelard chega a uma formulação que achei muito bonita quando li: “a memória sonha, o devaneio lembra”. Ele está falando principalmente das lembranças da infância, território em que memória e imaginação se aproximam a ponto de ficar difícil saber onde uma termina e a outra começa. Não está propondo uma teoria cognitiva da memória, muito menos antecipando neurociência. O interesse dele é fenomenológico e poético: como uma infância retorna à consciência quando a recordamos?A pergunta parece simples enquanto imaginamos a memória como um arquivo. Um episódio aconteceu, foi armazenado e depois recuperado. Só que nossa experiência cotidiana não funciona com essa limpeza. Algumas lembranças chegam incompletas. Outras permanecem incrivelmente nítidas em um detalhe e vazias em todo o resto. Certos períodos inteiros cabem em duas ou três imagens. Lembramos de um cheiro sem localizar o dia, de uma sensação sem recuperar o acontecimento, de uma pessoa sem conseguir mais reconstruir a voz. Nunca aconteceu com você de precisar se esforçar para relembrar o rosto de alguém?Também contamos nossas lembranças. Esse gesto parece banal, mas cada narrativa já exige escolhas. Onde o episódio começa? O que era relevante? Quem estava presente? Qual detalhe merece entrar? O que sabemos hoje interfere na maneira como compreendemos o que aconteceu naquela época? Depois de repetir uma história durante anos, ainda lembramos do episódio ou lembramos também das versões que aprendemos a contar sobre ele?Bachelard explora essa região movediça quando escreve sobre a infância. Ele chega a defender que ela precisa ser reimaginada. A formulação pode soar perigosa se lida depressa, como uma licença para fabricar o passado. Não creio que seja o melhor caminho. O que aparece no livro é uma infância que sobrevive em imagens, uma experiência passada que não retorna intacta porque quem recorda já não é a criança que viveu aquilo. A memória fornece matéria enquanto a imaginação recompõe, ilumina, aumenta certas partes e deixa outras na sombra.Isso me faz pensar na relação entre o tamanho físico de um lugar e o tamanho que ele adquiriu dentro de uma vida. Uma casa pode ter oitenta metros quadrados e continuar enorme na lembrança porque, para a criança, concentrava praticamente o mundo inteiro. Um quintal pequeno pode conservar a dimensão de território. Cinco minutos de espera podem sobreviver como uma eternidade. Uma tarde aparentemente banal pode ganhar um peso que nenhum registro externo conseguiria explicar. Se alguém mostrar a planta da casa, a planta vence qualquer discussão sobre metragem. Ela não responde por que determinado corredor continua comprido dentro da lembrança. Sinceramente, existe algo de acalentador no modo como Bachelard escreve sobre isso.Esse tipo de reconstrução não é necessariamente uma falsificação deliberada. Bachelard usa expressões fortes ao tratar da memória imaginada e chega a se interessar pela possibilidade de uma infância situada entre história e lenda pessoal. A formulação exige cuidado porque sabemos que lembranças podem estar erradas. Pessoas podem atribuir a si mesmas episódios contados por familiares, juntar cenas diferentes, trocar datas, idealizar relações ou preencher ausências. A imaginação participa da memória sem pedir autorização, só que essa participação não transforma todas as versões do passado em equivalentes.Em algumas situações, a precisão factual continua sendo decisiva. Um tribunal não pode trocar documento por atmosfera. Uma pesquisa histórica não deveria aceitar uma lembrança de décadas atrás sem avaliar suas limitações. Uma pessoa acusada injustamente não pode responder pelo simples fato de outra ter construído uma convicção subjetivamente intensa. Experiência interior e comprovação externa operam em planos diferentes.Ao mesmo tempo, corrigir os fatos não esgota a pergunta sobre aquilo que uma experiência se tornou para alguém. Posso descobrir que determinado episódio ocorreu de modo diferente do que lembrava e ainda precisar compreender por que a versão que carreguei durante anos organizou minhas emoções daquela maneira. A informação nova corrige o acontecimento, mas não apaga automaticamente a história produzida em torno dele.Isso vale também para aquilo que nunca aconteceu. Imaginar o futuro é uma atividade estranha porque tratamos como inexistente uma coisa capaz de ocupar boa parte do presente. Antes de uma entrevista importante de trabalho, podemos realizá-la mentalmente muitas vezes. O mesmo acontece antes de um encontro. Antecipamos perguntas, construímos respostas, erramos diante de pessoas que ainda nem nos perguntaram nada. Antes de uma conversa difícil, ensaiamos versões do outro. Antes de uma mudança, já percorremos mentalmente ruas em que nunca moramos. Antes de perder alguém, em determinadas circunstâncias, já sofremos com a possibilidade da perda. Cair nesse tipo de pensamento é bem complicado. Dificilmente essa imaginação é agradável.Bachelard escreve que a imaginação se lança em direção ao futuro e chama certos devaneios de “hipóteses de vidas”. A expressão vai além de simplesmente chamar tudo isso de fantasia. Uma hipótese não precisa se realizar para alterar uma escolha. Podemos experimentar uma possibilidade, aproximar-nos dela, rejeitá-la, perceber que ela nos atrai ou descobrir que sua imagem nos assusta. A vida objetiva continua uma só, pelo menos no sentido banal de que percorremos efetivamente apenas o caminho que aconteceu. Interiormente ensaiamos muitos outros. Alguns ficam pelo caminho sem importância. Outros deixam resíduos, reminiscências.Uma vida que não tivemos pode continuar produzindo uma espécie de nostalgia. Uma decisão tomada anos atrás também contém, de forma meio incômoda, as decisões recusadas, os caminhos não percorridos. Não precisamos transformar isso em drama existencial permanente, seria cansativo demais. Ainda assim, a consciência humana parece perfeitamente capaz de sofrer, desejar ou sentir saudade diante de possibilidades. A ausência de acontecimento não impede a presença da experiência.O devaneio ocupa uma posição curiosa dentro disso porque suspende por algum tempo a obrigação de transformar tudo em projeto. Bachelard insiste bastante na solidão do sonhador, mas sua solidão não exige deserto, cabana ou isolamento absoluto. Ela surge quando o sujeito consegue se retirar por um momento das solicitações imediatas do mundo. A atividade prática diminui, a atenção deixa de obedecer somente ao que precisa ser resolvido e as imagens começam a ganhar um espaço próprio.Nossa relação com esse estado continua ambivalente. Valorizamos criatividade, mas desconfiamos do tempo aparentemente improdutivo em que boa parte dela se prepara. Isso fica ainda mais estranho num mundo que cobra desempenho, resposta, movimento e uma forma de presença constantemente concreta, pé no chão. Gostamos do resultado, desde que ninguém demore demais olhando para o teto. Uma pessoa sentada sem fazer nada visível parece mais suspeita do que outra respondendo mensagens inúteis e espalhando bobagem com velocidade abissal. Pelo menos a segunda oferece sinais convincentes de atividade. Aparências, não?Bachelard associa o bom devaneio a repouso, felicidade e expansão, mas vou ser um pouco presunçoso e acrescentar uma cautela. A solidão também pode intensificar ruminações, alimentar cenários repetitivos e transformar a imaginação numa dinâmica de circuito fechado. Nem todo afastamento da atividade prática abre alguma coisa. Às vezes apenas repetimos a mesma discussão pela centésima vez, sempre vencendo com argumentos cada vez melhores uma pessoa que nem está presente. Será que isso merece o nome de criatividade ou imaginação fértil? Provavelmente merece outro.Essa limitação não reduz o valor do que Bachelard está observando. Muito pelo contrário, ajuda a localizar melhor sua proposta. O devaneio poético não é qualquer viagem mental. Ele possui certa fertilidade, produz imagens, estabelece relações, desloca o sujeito de uma percepção já endurecida. Em suas melhores formas, não nos entrega uma cópia alternativa do mundo. Faz o mundo oferecer mais possibilidades de experiência.Uma imagem pode mudar o modo como percebemos algo que sempre esteve diante de nós. Depois de ler determinada descrição de uma cidade, nunca mais vemos a cidade exatamente da mesma maneira. Depois que alguém encontra uma palavra para uma sensação que conhecíamos sem saber nomear, a própria sensação parece ganhar outro tom, quando não uma cor. A linguagem não criou do nada aquilo que existia em nossa experiência, mas participou da forma que essa experiência passou a ter.Bachelard leva essa ideia bem longe. No capítulo final do livro, ele comenta Carnage, romance de Jacques Audiberti, escritor francês que transitou pela poesia, pelo romance e pelo teatro. Bachelard se interessa especialmente por uma passagem ambientada num lago, na qual Audiberti amplia sensações do corpo e da água até que a percepção comum parece já não dar conta do que está sendo vivido. É nesse contexto que Bachelard fala numa verdadeira “experiência da imaginação”. Para ele, as imagens intensificam as sensações de tal maneira que uma realidade reduzida ao que foi simplesmente percebido poderia até empobrecer aquela experiência.A formulação incomoda um pouco se estivermos acostumados a pensar o imaginário como uma versão enfraquecida da percepção. Para Bachelard, em certas condições, a imagem acrescenta intensidade ao sensível. Acho que conseguimos reconhecer isso sem adotar integralmente a linguagem bachelardiana. Um cheiro pode devolver uma casa inteira sem reconstruir fielmente nenhum cômodo. Uma música escutada depois de muitos anos pode trazer uma época junto, mesmo quando não conseguimos enumerar acontecimentos daquela época. Uma palavra pode transformar a percepção de uma relação porque passa a organizar coisas que antes estavam espalhadas. A experiência humana não chega até nós separada em gavetas muito limpas de percepção, memória, linguagem e imaginação. Elas interferem umas nas outras o tempo inteiro. Quanto mais tento entender onde uma termina e outra começa, mais interessante a coisa fica.Essa interferência também explica o perigo. Se as imagens participam da maneira como vemos, lembramos e esperamos, elas podem ampliar o mundo e podem estreitá-lo. Podemos idealizar uma pessoa morta até apagar as partes incômodas de quem ela foi. Podemos transformar uma relação antiga num paraíso perdido porque o presente está ruim. Podemos reconstruir uma infância inteira sob a luz de um único afeto. Podemos imaginar intenções alheias tantas vezes que começamos a reagir a elas sem que tenham sido declaradas. Podemos antecipar uma catástrofe com tamanha riqueza de detalhes que o corpo passa a responder a um acontecimento inexistente. A imaginação não merece confiança automática só porque é fértil. Justamente por possuir força, exige prudência.Essa prudência não deveria devolver a imaginação ao lugar de atividade menor. Uma coisa pode ser poderosa e falível ao mesmo tempo. A memória também é. A percepção também é. Nossa capacidade de interpretar qualquer situação depende de recortes, referências, expectativas e posições. Reconhecer essas interferências não dissolve o mundo objetivo. Só torna menos confortável a fantasia de que o experimentamos sem algum tipo de mediação.Quando Bachelard afirma que o devaneio nos ajuda a habitar o mundo, entendo a frase num sentido mais amplo. Habitar não envolve somente ocupar fisicamente um espaço. Uma pessoa pode morar durante anos num apartamento que nunca se torna casa e guardar durante décadas a intimidade de um quarto em que viveu pouco tempo. Pode conhecer uma rua inteira e ainda assim não perceber muita coisa nela até que uma lembrança, uma imagem ou uma história altere sua atenção. O mundo compartilhado fornece matéria, nossa vida interior trabalha sobre ela.É por isso que a ideia de imaginação como fuga me parece insuficiente. Fugir é uma das coisas que podemos fazer imaginando. Também podemos retornar, antecipar, ensaiar, deformar, ampliar, compor, apagar, inventar e suportar. Às vezes fazemos várias dessas coisas ao mesmo tempo. Uma lembrança feliz pode consolar e falsificar. Uma expectativa pode orientar uma escolha e nos prender a uma versão impossível do futuro. Uma imagem poética pode oferecer uma experiência nova sem ensinar nada que possa ser colocado numa planilha depois. Ainda bem.Continuo achando indispensável saber quando alguma coisa aconteceu e quando foi imaginada. Dependendo da situação, essa separação protege pessoas, preserva fatos e impede que convicções particulares se transformem em prova. Só que a vida vivida não cabe inteira na relação dos acontecimentos verificáveis, embora eles sejam fundamentais e necessários. A precisão factual responde a um conjunto de perguntas. Nossa experiência interior faz outras, e nem sempre as duas encontram a mesma resposta.A imaginação não transforma o que não aconteceu em acontecimento. Ela participa da forma que acontecimentos, ausências, possibilidades e lembranças adquirem dentro de uma vida. Pode ampliar uma lembrança, deformá-la, dar peso a uma possibilidade que ainda não existe ou conservar por décadas um lugar que desapareceu. Retirar tudo isso daquilo que chamamos de realidade apenas porque não cabe numa comprovação objetiva reduziria demais a experiência humana. Uma realidade formada somente pelo que pode ser comprovado ficaria estranhamente pequena.

## Referências
AUDIBERTI, Jacques. Carnage. Paris: Gallimard, 1942.BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1996.